A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) chegou cercada de expectativas e saiu envolta em polêmica. A diretora Emerald Fennell optou por uma releitura autoral que se distancia de diversos elementos estruturais e psicológicos do romance original.
Mas afinal, o que foi deixado para trás? E até que ponto essas mudanças alteram a essência da história criada por Emily Brontë?
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Personagens ausentes no filme
Uma das alterações mais significativas está nas ausências.
No romance, Hindley Earnshaw, irmão de Cathy, herda o Morro depois da morte do pai e desempenha um papel fundamental na degradação de Heathcliff. É ele o homem consumido pelo vício e pelo ressentimento, responsável por transformar o protagonista em servo e, mais tarde, por perder suas posses para ele.
No filme, Hindley simplesmente não existe como personagem independente. Ele foi parcialmente absorvido pela figura paterna. Com isso, perde-se uma camada importante do ciclo de humilhação e vingança que sustenta a narrativa.
Também desaparecem Hareton (filho de Hindley) e Linton (filho de Heathcliff e Isabella). A exclusão da segunda geração compromete a estrutura circular do romance, que originalmente vai muito além da morte de Cathy.
História pela metade
O filme adapta apenas a primeira parte do livro, encerrando a narrativa com a morte de Cathy.
No romance, porém, a trama continua por muitos anos, acompanhando a vida de Catherine (filha de Cathy), Hareton e Linton. É nessa segunda metade que o ciclo de ódio começa, finalmente, a se dissolver.
Ao suprimir essa parte, a adaptação transforma uma história de decadência e possível redenção em uma tragédia incompleta.
Propriedade e estrutura social
Outro ponto alterado envolve a dinâmica das propriedades.
No livro, o velho Earnshaw é dono tanto do Morro dos Ventos Uivantes quanto da Granja dos Tordos. Os Linton são seus inquilinos, o que estabelece uma hierarquia social mais complexa entre as famílias.
Ao simplificar essa estrutura, o filme elimina uma das engrenagens sociais que movem a trama, porque afinal, em Brontë, amor e poder estão sempre entrelaçados.
Personalidades transformadas
Aqui talvez estejam as mudanças mais sensíveis.
Nelly Dean, no romance, não demonstra inveja ou ressentimento explícito em relação a Cathy. Ela é observadora, prática, por vezes moralista, mas não inescrupulosa. No filme, ganha contornos mais ambíguos.
Joseph, figura austera e fanática religiosa no livro, é retratado como jovem e submisso na adaptação, perdendo a aura opressiva que contribui para o ambiente sufocante do Morro.
Isabella Linton, descrita como jovem culta e inteligente, ainda que ingênua, surge no filme de forma mais caricata e fragilizada.
A grande questão é que essas alterações não são meramente estéticas. Elas transformam o tom psicológico da obra.
Aparências e fidelidade descritiva
- Emily Brontë descreve:
- Edgar e Isabella como loiros
- Cathy como morena
- Heathcliff como “cigano”, de pele morena e cabelos escuros
- Nelly como mais velha e fisicamente diferente da protagonista
- Joseph já idoso no início da história
A adaptação altera diversas dessas características, o que para parte do público representa liberdade criativa e para outra, descaracterização.
Heathcliff: o maior impacto da adaptação
Mas se há um ponto em que qualquer mudança reverbera profundamente, é em Heathcliff.
No romance, ele é uma figura brutal e enigmática. Sua origem indefinida, sua aparência associada ao estrangeiro, seu silêncio carregado de ressentimento, tudo contribui para que ele seja simultaneamente vítima e vilão.
Heathcliff não é apenas um amante apaixonado. Ele é vingança encarnada. Sua obsessão por Cathy atravessa décadas e se estende para além da morte. Ele destrói gerações, manipula casamentos, instrumentaliza crianças e ainda assim mantém uma aura trágica.
Quando a adaptação suaviza, simplifica ou altera essa complexidade, o impacto é inevitável. O risco não é apenas modificar um personagem, mas alterar o eixo moral da narrativa inteira.
O Morro dos Ventos Uivantes não é uma história romântica convencional, mas uma história sobre possessão, orgulho, humilhação e destruição emocional.
E Heathcliff é o seu coração sombrio.
Então O Morro dos Ventos Uivantes é fiel ou uma releitura?
É senso comum que adaptar não significa copiar, mas toda adaptação precisa decidir o que preservar: a estética? A trama? Ou a essência?
A versão de Emerald Fennell opta por uma leitura autoral, assumidamente reinterpretativa, o que para alguns, isso é ousadia, mas para outros é um afastamento excessivo do espírito original de Emily Brontë.
Talvez a verdadeira pergunta não seja se o filme é fiel, mas se ele compreende a alma trágica que tornou o romance imortal.
A nova adaptação não falha por ousar, mas por esvaziar. Não se trata de exigir fidelidade literal a cada detalhe do romance. O cinema é outra linguagem, outra respiração, outra forma de contar histórias. Mas há uma diferença entre reinterpretar e simplificar, e é exatamente nessa linha que o filme escorrega.
O problema não é o que foi mudado.
É o que foi perdido.
E você?
Você prefere adaptações rigorosamente fiéis ao livro ou acredita que o cinema deve ter liberdade para reinventar clássicos?




