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	<title>Fabiano Martins, Autor em O Cinema É</title>
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		<title>A Última Casa, da Netflix, vale a pena?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Fabiano Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 20:42:39 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">A fim de expandir o leque de seu catálogo, o serviço de streaming aposta em obra capitaneada pelo eclético diretor Louis Leterrier, cujo cartel vai de Fúria de Titãs a Velozes e Furiosos, apoiado pelas estrelas emergentes Wagner Moura — recém-elegível ao Oscar por ótima atuação no competente O Agente Secreto — e Greta Lee — projetada pelo interessante Vidas Passadas —, responsáveis por conduzir a promissora trama sobre o fim do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Partindo de um POV submerso que cuidadosamente evidencia a poluição marinha causada por nós, algo ou alguém vem à tona enquanto somos apresentados a Jason (Moura), engenheiro desempregado e chefe da família Delgado que, ao lado da esposa Ann (Lee), se vê às voltas com duas grandes questões: criar o casal de filhos pré-adolescentes bem como gerenciar uma casa (evidenciada pelo número 11817, clara referência ao advertidor Deuteronômio 11:8-17) que tanto financeira quanto estruturalmente está a ponto de desmoronar, restando de pé em função exclusivamente da chaminé que assume a função de coluna de sustentação. Porém, um terceiro problema muito maior os aguarda uma vez que, após uma chuva aparentemente comum irromper, tanto eles quanto todos os vizinhos da rua se encontram trancados misteriosamente no interior de suas residências com as saídas bloqueadas por uma resistente camada de água.</p>


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<p class="wp-block-paragraph">Pouco seguro acerca de que premissa trabalhar no roteiro assinado por Matthew Robinson (Boa sorte, divirta-se, não morra), Leterrier opta por pulverizar de forma atabalhoada temáticas concernentes à situação na qual os moradores daquela rua, e possivelmente do globo, se encontram. À medida que a história avança e as especulações tornam-se centrais nos diálogos, esses sustentados por duvidosa atuação de todo o elenco, indicando equivocada direção de atores, somos servidos de uma miríade de insinuações. De conspiração governamental a punição divina passando por invasão extraterrestre, nada se fixa até que, enfim, as silhuetas dos responsáveis pela calamidade se fazem presentes: criaturas fantásticas agindo nas sombras contra a humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estabelecidos os elusivos antagonistas, o filme se encarrega então de, a partir de duas cenas, vislumbrar o potencial destino dos Delgado e ao mesmo tempo ilustrar a maior contradição dessa fábula: mortes violentas via confronto físico, como a moradora que calha de estar fora de casa antes da infortunada torrente ou uma lenta e melancólica partida por inanição provocada pelo cárcere, linha de chegada da esposa do vizinho mais próximo. Certos dos malfeitos pelas mãos da humanidade e definida sua sentença, cria-se incoerência a partir do momento em que, a depender da conveniência, os abissais adotam posturas completamente opostas em relação aos seus alvos. Queremos matar todos de fome, assim como vocês fazem com a fauna marinha? Queremos nos comunicar e tentar criar laços? Extermínio ou conciliação? Confronto direto ou estratégia de cerco?<br>Independentemente das respostas, Jason e os seus têm que lidar com os conflitos do isolamento, que, por incapacidade da direção em lidar com os esperados conflitos emocionais do convívio familiar agudizados pelo confinamento (Olá pandemia), se diluem em situações esvaziadas de qualquer peso emocional, artificialmente maquinadas para soarem relevantes. Além disso, a fome se avizinha e o caminho escolhido para esse obstáculo ser transposto representa com precisão outro grande problema do longa: as conveniências praticadas não através de conclusões repentinas de conflitos, mas pelo excesso de preparações no roteiro que abusam até do mais fervoroso devoto da suspensão de descrença porquanto, tais plot devices, em vez de estabelecidos de forma orgânica após o roteiro rascunhado passar a demandar soluções para avançar sua trama, fazem o oposto e deixam a impressão de que, a partir deles, escreveram uma história displicente, como uma rodovia que não tem trajetória lógica e é meramente um conjunto confuso de retas pavimentadas para conectar curvas predeterminadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, tão difíceis de visualizar quanto nossos indescritíveis visitantes, são os acertos do filme que residem unicamente em aspectos estéticos quando do, nada orgânico, salto temporal de 5 anos, ao sermos apresentados a uma casa crivelmente desgastada e adaptada à nova realidade survivalista dos Delgado, exibindo os elementos sintéticos da edificação sobrepujados pelo avanço da natureza, bem como recintos agora banhados por luz natural e adornados por cores que remetem ao silvestre provocadas pelo cultivo improvisado de frutas e verduras, escolhas exitosas resultado de competente design de produção e fotografia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, passado esse lapso culposo de qualidade, fiel à confusão tonal proposta desde o início, o desfecho não decepciona em, novamente, lançar mão de incoerência ao transformar o filme numa passagem incompreensível de ação que não só peca pela péssima execução como também em conceito. A sequência denuncia forte dependência de amplidão para lidar com organização geográfica, pois, vide Carga Explosiva, o maestro sabe conduzir cenas dinâmicas, porém, ao propô-las em planos mais fechados, não se sai bem. Conceitualmente falha também ao adotar temática completamente cartunesca, escorada não só na guinada Chris Columbus (Esqueceram de mim), quanto na figura caricata de “professor Pardal” adotada por Jason na segunda metade do longa, profundamente apartada da proposta realista inicial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, a produção acerta ao escolher o interessante tema da subversão do antropocentrismo costurado por notas lovecraftianas, porém peca pela péssima execução de basicamente todos os elementos audiovisuais propostos, desperdiçando tanto seu ótimo elenco quanto um mistério potencialmente intrigante.</p>
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