A Garota Invisível traz algumas desventuras e anseios teens à respeito de seus relacionamentos, envolvimento com a atual e moderna cultura de likes e cancelamentos, suas inseguranças e euforias, além de percorrer o amadurecimento – ou não – dos jovens adolescentes apresentados. Com um roteiro bem simples e rápido, a comédia romântica estrelada por Sophia Valverde (As Aventuras de Poliana) trabalha clichês adolescentes com pouca profundidade e de fácil dedução, porém de maneira divertida no estilo Teen.
A história de Mauricio Eça começa com Ariana (Sophia), tendo sempre passado “despercebida” em sua escola, apenas com notas excelentes (a famosa ‘nerd’), seu melhor amigo Téo (Matheus Ueta) e nada de popularidade. Eis que o tradicional ‘pior dia da minha vida’ (adolescente) chega para ela, quando, sem querer, posta um vídeo se declarando para o garoto mais popular da escola, Khaleb (Guilherme Brumatti). Agora que todos viram a espontânea declaração de Ariana, ela precisa lidar com os ciúmes da ex-namorada dele, Diana (Mharessa Fernanda), que faz de tudo um pouco para estragar as possibilidades do romance da protagonista.

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A ideia de que Ariana se sente uma garota invisível é plausível, ainda mais quando lembramos que, inevitavelmente, pelo menos uma vez já almejamos a popularidade na escola, porém o nome do filme não parece identificar a postura e emoções da personagem, que é mais autoconfiante do que podemos esperar inicialmente, além de seu abrupto “crescimento”/compreensão das coisas no decorrer rápido dos desafios e resoluções que vai vivendo. Acredito que esta sensação surge por roteiro e atuações rasas, somado à inserção de canções, no estilo musical, ao longo do filme, o que torna a história ainda mais leve e menos imersiva.
Infelizmente, como em quase todo filme de comédia romântica, a #vergonhaalheia está presente para escancarar como nos vemos e como os outros nos veem, trazendo à tona vontades e desejos, inseguranças e medos, ou a pura e simples falta de noção, para alívio cômico e reflexão sobre o absurdo. Em A Garota Invisível é da #vergonhaalheia que os problemas vão surgindo, um após o outro! Já no início, ela é trabalhada em uma mistura de sonho acordado (onde ficamos assistindo e gritando internamente, “Ei, ACORDA! Olha aqui, POR FAVOR!! A situação tá só piorando! Ahhhh, PARA!”), com o humano e real medo do julgamento no mundo conectado e influenciável que vivemos atualmente.
Se o objetivo da cena pivô citada foi deixar o espectador desconfortável com a situação, assim como a personagem ficaria em seguida, funcionou bem! O tempo demandado para chegar no clímax da cena de vergonha foi assustadoramente bom, me deixando com aquele medo no estômago – de que nunca vai acabar a vergonha!
As atuações em um geral me pareceram fracas para uma proposta mais adolescente e jovial, me remetendo muito mais às atuações já realizadas por tal cast em trabalhos televisivos para o público infantil. Talvez coubesse um maior trabalho de roteiro e direção para o aproveitamento de atuações mais maduras. A maior naturalidade deles foi possível ver nos momentos em que cantavam suas músicas ou no uso de gírias, por exemplo.
Houveram boas piadas com uma dinâmica simples e levemente pausadas, quase didáticas na atuação. Para mim, elas funcionaram bem, como na conversa telefônica entre os melhores amigos Ariana e Téo, onde cada um falava de um assunto diferente, mas as respostas pareciam encaixar no diálogo mental de cada um. Momentos divertidos.
A pós edição do filme foi interessante, há bons cortes e boas movimentações de câmera, inclusive nos closes. Em contrapartida, há alguns momentos importantes onde a edição de som parece falhar, com o corte abrupto de uma música ao mudar de cenário; a entrada antecipada de uma narração emotiva que deve conciliar com a performance emocional da protagonista na tela; ou o som inaudível e não compreensível do boneco/companheiro de interação full time do personagem de Matheus Ueta (se tentaram mirar no cômico, acertaram apenas em barulhos estranhos que confundem a internet e viram memes – quem sabe, não é?)
A produção de arte, locações e roupas foram bem escolhidas para o filme em questão, principalmente para Diana, a personagem Influencer de Mharessa Fernanda, que pode gerar curiosidade e interesse pelo próprio conteúdo fictício e personalidade que é construída ao longo do filme.
Somado a tudo isto, é possível perceber que o filme demonstrou um cuidado real e efetivo para sua melhor realização em tempos da pandemia de 2020, e com todas as limitações e desafios de produção que veem desse momento. Nos créditos consta a equipe técnica especializada no assunto e presente ao longo do projeto. Esta necessidade e cuidados mostraram estratégias simplistas no roteiro e gravação, mas, que ainda assim, foram bem executadas e entregues.
O uso de Animação gráfica / Motion Graphics em A Garota Invisível foi super bem vindo, ainda que concentrado mais ao final do filme. Também gostei bastante das inserções de músicas cantadas pelo cast principal. Particularmente, a voz de Sophia cantando torna ela mais adulta do que em suas próprias narrações, que soaram bastante infantis. Foi uma diferenciação nítida, mas um leve alívio (com ela cantando) para a construção da personagem em minha mente.
A música final com Milton Nascimento e Tiago Iorc (Mais Bonito Não Há) me encantou. Foi muito bom e feliz ouvi-la. Ótima escolha para fechar um filme leve e doce.
Ariana que me perdoe, mas a estrela roubadora de holofotes para mim foi Laurinha (Clarinha Jordão), a irmã da personagem Paty (Bia Jordão). A linda atriz mirim, que faz quase um processo de coaching com a galera foi a comédia “inesperada” e bem vinda, que se torna peça fundamental para o desenrolar da história e para o amadurecimento de alguns personagens. Laurinha merecia mais tempo de tela analisando os personagens em seu divã! Clarinha pede o mundo e eu dou. <3
Como um último detalhe técnico de roteiro de que senti muita falta e acredito que poderia ter sido criativamente muito bem vindo e bem explorado, é a presença ou melhor representação dos pais/adultos. A falta deles trouxe um ar de falsa maturidade, que reforçou a infantilização e minha estranheza com as atuações ao longo do filme.
Nitidamente os adultos não fizeram parte do roteiro e do cast, com exceção do “divertido” (lê-se bobão) professor Chicão (Marcelo Varzea), mas a importante presença da mãe de Ariana é fundamental na história ao travar breves diálogos de preocupação e autorização/responsabilidade sobre a atriz principal. No filme, ela conversa com uma voz, supostamente materna, que fala como se estivesse atrás da câmera (que está localizada fora do quarto da atriz, captando a mesma deitada na cama, de frente e em plano aberto), focando assim apenas na atuação de Sophia. Tal voz solta me criou um grande vazio e insatisfação.
Como solução criativa, uma ideia poderia ter sido aplicada de forma prática, engraçada, intimista e curiosa. Reconhecida graças a famosos desenhos animados, como A Vaca e o Frango ou Meninas Super Poderosas, a ideia seria: porquê não filmar apenas a perna desta “mãe” junto de sua voz? Sua presença física seria confirmada e seu peso como a responsável na casa também. Sua voz ganharia veracidade e representatividade, e o humor estaria presente de maneira criativa e divertida, em aparições rápidas e precisas.
Por fim, o roteiro pegou algumas bem sucedidas referências em clássicos americanos antigos e atuais, como Meninas Malvadas (Mean Girls – 2004), 10 Coisas Que Qu Odeio Em Você (10 Things I Hate About You – 1999), dentre outros. Isso foi eficiente na história.
Assim, A Garota Invisível poderia ter trabalhado mais profundamente a ideia da invisibilidade/auto conhecimento do título? Poderia. Poderia ter ficado sem as músicas cantadas e animações gráficas? Sim, mas que triste, não é? E, poderia ter feito mais um monte de outras coisas? Talvez, mas então não seria o filme teen, fofo e carismático que provavelmente buscou ser.
Este parece ser um filme bem executado e bem produzido estrategicamente ao que se propõe, que entrega bem a proposta comercial da atual comédia teen brasileira, mas peca em questões técnicas somadas e na simplicidade geral. Futuramente, torço para ver novos e mais maduros trabalhos de atuação dos atores presentes. Além, é claro, de histórias mais desafiadoras no audiovisual.
Confira o filme e me diga o que acha de A Garota Invisível também. 😉



