A Hora do Mal, o novo filme de Zach Cregger, chegou aos cinemas nesta última quinta-feira, depois de um furo de notícia, que anunciava, em parte, o que estava por vir. Após o sucesso de sua estreia diretorial, Noites Brutais, Cregger começou a trabalhar no seu próximo filme, A Hora do Mal e quando Hollywood teve acesso ao roteiro do projeto, uma briga entre estúdios e produtores executivos se instaurou, com ofertas milionárias sendo colocadas em mesa para ver quem ficaria com os direitos de produção e exibição do filme.
Toda essa comoção é compreensível. A premissa do filme é digna de um clássico sombrio dos irmãos Grimm. Em uma fatídica madrugada, na cidade fictícia de Maybrook, Pensilvânia, 17 crianças, todas da turma da professora Justine (Julia Garner), acordam às 2:17 da manhã, saem de casa, correm em direção à escuridão e desaparecem. Um mês depois, acompanhamos como essa tragédia afetou a população local e seguimos uma série de habitantes da comunidade enquanto eles tentam desvendar o mistério por trás do acontecimento.

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O conflito principal do filme, envolvente e macabro, já é o suficiente para fisgar a atenção de quem assiste logo nos primeiros minutos do longa, com direito a uma sequência de abertura de causar arrepios. A narração introdutória, recontando os fatos que ocorreram no subúrbio durante aquela madrugada, seguida do visual, já icônico, das silhuetas de crianças correndo em meio à escuridão com os braços estendidos, como um avião de papel, é uma das melhores cenas do ano. A partir dali somos apresentados a uma estrutura de história nada convencional para o gênero, onde acompanhamos a perspectiva de seis personagens diferentes ao longo do filme, uma escolha narrativa claramente inspirada no storytelling novelista de clássicos como Magnólia e Pulp Fiction: Tempo de Violência.
Em A Hora do Mal, os mesmos eventos são recontados através dessa abordagem e logo nos vemos em uma encruzilhada de ações e revelações que atingem um ponto de tensão em comum no momento em que se convergem, culminando em um clímax divertido, insano e surpreendentemente catártico.
Apesar de Cregger já ter explorado essa troca de perspectivas em Noites Brutais, ela funciona muito melhor aqui, não só em termos de ambição, mas também em execução. Acompanhar uma comunidade despedaçada através de diferentes fragmentos individuais é uma ideia que faz sentido. Apesar de alguns episódios prolongarem o seu tempo de estadia e não serem tão efetivos quanto outros pontos de vista, o formato ainda permite com que a tensão do filme seja construída de modo graduativo, instigando o interesse do espectador a cada virada narrativa e o fato do elenco, extremamente talentoso, ser tão magnético em tela, é outro fator que permite com que essa estrutura encontre sucesso. Julia Garner, Austin Abrams e principalmente Amy Madigan, que entrega uma atuação que já figura entre as mais impressionantes de 2025, brilham sempre que aparecem em cena.
O sucesso de Zach Cregger como cineasta, é curioso. Ele não tem medo de brincar com diferentes tons e muito menos faz questão de enxugar suas ideias, jogando todas elas contra a parede, mas a sua direção é potente, dinâmica e constrói uma atmosfera de desconforto, que traz sentido para o seu caos. É um caminho que pode gerar frustração em quem preza por obras que tenham temas que estejam narrativamente alinhados da montagem inicial até os créditos e esse elemento presente na abordagem do diretor, junto de seu senso de humor, sempre pronto para transformar um grito em uma risada, provavelmente vai ser um ponto de insatisfação para uma parcela do público.
E mesmo que o filme perca a oportunidade de não mergulhar em sua mitologia de forma mais profunda após estabelecer algumas respostas, é empolgante conseguir entender a ordem lógica dos eventos da história, e ainda assim, não ser capaz de atribuir um significado temático para aqueles fatos.
Talvez A Hora do Mal tenha algum subtexto político. Talvez ele seja uma manifestação de sentimentos internos de Cregger. Mas talvez o filme também não tenha a pretensão de ser nada além de um conto de terror sinistro. E definitivamente, eu não me importo em tentar decifrar ou atribuir valor para essa discussão. É nessa contradição curiosa que acredito que mora a grande qualidade do projeto: ele existe entre o concreto e o abstrato, entre o terror e o humor, entre o clássico e o moderno. No exato ponto do equilíbrio de aspectos que não deveriam funcionar em conjunto, mas que de alguma forma funcionam.



