Crítica de filme

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 5

Geralmente, em filmes que tratam de calamidades mundiais e apocalipses, os Estados Unidos da América estão na frente. Sempre salvam tudo, sempre resolvem tudo e sempre derrotam os inimigos. No entanto, é aqui em A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (The Long Walk) que os EUA encontraram uma história extremamente adequada. E, por mais fantasiosa que seja sua proposta, ela nunca sai da plausibilidade.

Aqui, muito do que é real persiste: banalização da violência, glorificação de autoritarismo, armamentismo, desigualdade econômica, tolerância do que não se pode tolerar. A narrativa, então, usa a realidade para imaginar o que seria do mundo se essas coisas fossem potencializadas por pobreza, fome e violência, forçando jovens a lutarem (indiretamente) para que tenham a chance de viver bem. Bom, Francis Lawrence, responsável por todos os Jogos Vorazes (Hunger Games) depois do primeiro, responde a isso, apresentando o seu melhor trabalho desde Jogos Vorazes: Em Chamas (Hunger Games: Catching Fire), com mais emoção, mais intensidade e também mais senso narrativo.

Leia também
a empregada
A Empregada

Em A Empregada, a aposta está no exagero e na estilização para construir um suspense eficaz e politicamente incômodo.

Aqui, ao invés de investir bastante no pré, Francis emprega seus esforços no durante, quando a Marcha já começa, e então o espectador pega aqueles personagens com o bonde andando. Você os conhece enquanto eles se conhecem, odeia quem eles odeiam e descobre coisas enquanto eles descobrem, além de sentir a dor quando eles sentem. O interessante é que, sem a necessidade de colocar os garotos para lutar, Francis consegue fazer de uma caminhada a coisa mais agonizante que o espectador irá ver em um bom tempo. É como se, acertadamente, a direção, o roteiro e a narrativa transformassem-nos em caminhantes junto dos garotos, e, assim como eles, tomamos as dores e nos compadecemos de quem não esperávamos. A desconfiança paira o tempo inteiro e o medo é crescente graças ao elemento do desconhecido.

O horror da situação ainda é agravado por como Francis consegue extrair situações desconfortáveis e dolorosas, como quando os personagens acabam ficando sem sapatos, ou quando chega a noite e é preciso dormir enquanto se caminha, quando chove, quando é preciso fazer necessidades e quando o cansaço os faz desacelerar nem que seja um pouco. O que, no início, é mais alegre e mais alto astral, torna-se opaco, nervoso e morno no fim (de maneira positiva). O horror está nisso, em como aqueles rostos alegres e que gostam de falar besteira juntos se dilaceram e metamorfizam em caras exaustas e mentes violentas que só querem que tudo acabe. As despedidas que vão começando a acontecer, a forma como a narrativa nos faz conhecer alguém que sempre esteve ali, tudo isso se junta em um amálgama de dor.

O desenvolvimento dramático da obra é seu segundo ponto mais forte, com os laços que se formam entre os protagonistas, e por mais que, parando para pensar, tudo aconteça em pouco tempo, o estresse e o tamanho da situação são tão marcantes que torna completamente verossímil o surgimento de amizades tão fortes. E, da mesma forma, dói ver como tudo pode ser quebrado tão rápido. Até mesmo aqueles os quais a narrativa praticamente torce que o espectador odeie acabam recebendo nosso respeito só por estarem ali. O mais interessante é ver como todas essas coisas acontecem em constante movimento, então o filme literalmente não para.

A narrativa e a direção são tão boas no que fazem aqui que, em determinadas partes, é possível sentir incômodos, dores e é claro, muita tristeza. Eu mesmo não esperava, mas chorei bastante com A Longa Marcha, e isso graças ao poder que a obra tem de despertar empatia. O roteiro consegue criar diálogos que parecem nunca ir para lugar nenhum, mas na verdade estão constantemente desenvolvendo os personagens, além de, muito pontualmente, inserir acontecimentos marcantes que estão bem distribuídos para que jamais pareçam demais e nem de menos. Ele explora a calmaria para causar o desarme e trás de volta o caos com um despertar. É como morder e assoprar quem assiste.

Como em um videogame, o filme progride e desliza como manteiga, graças à Francis, que costuma saber muito bem criar experiências lisas, porém quase nunca vazias. E, bom, o filme jamais funcionaria bem se não fosse esse elenco estelar que possui. Cooper Hoffman e David Jonsson estão magnéticos como protagonistas, e sua parceria, sua ligação, o amor que existe entre eles é palpável. Você não consegue se importar com mais nada quando eles estão no foco, e assim a secura de um luta contra o carisma esperançoso do outro, resultando numa amigável rivalidade que se mostra muito profunda. São interpretações cheias de verdade e cheias de coração, sendo capazes de quebrar quase qualquer um que assistir.

Francis Lawrence sempre foi um diretor competente, ao meu ver, e me desanimava ver como seus últimos filmes não passavam de medianos ou até ruins, como foi com Operação Red Sparrow (Red Sparrow), Terra dos Sonhos (Slumberland) e Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Hunger Games: The Ballad of Songbirds & Snakes), mas felizmente em A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (The Long Walk), o diretor se reencontrou no drama, na violência e no horror, apresentando uma das melhores obras do ano e um dos melhores filmes de sua carreira.

Compartilhar
A Longa Marcha

A Longa Marcha: Caminhe ou Morra

The Long Walk
18
País: EUA
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: JT Mollner
Elenco: Cooper Hoffman, David Jonsson, Tut Nyuot, Charlie Plummer
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.