Crítica de filme

A Noiva

Publicado 27 minutos atrás
Nota do(a) autor(a): 2.5

A premissa de A Noiva me fascinou desde a primeira divulgação do trailer. Embora eu não esteja nem um pouco familiarizada com a obra de Mary Shelley e suas adaptações para o cinema (pausa pro leitor me tacar pedras), fiquei me deliciando com as possibilidades que Maggie Gyllenhaal iria explorar no universo de Shelley. O filme marca sua estreia na direção e roteiro, chegando carregado de promessas para se tornar uma trama gótica banhada em violência. Uma coisa que posso afirmar: ela cumpriu a promessa. Como a tragédia da noiva do monstro foi pouco trabalhada em tela, aqui Gyllenhaal pôde brincar à vontade e criar novos rumos para o casal.

Contudo, o que A Noiva tem a dizer por trás de sua estética caótica, suja e cheia de raiva feminina? Pouquíssimas coisas! A história se inicia com a solidão de uma figura imortal. Frankenstein (Christian Bale) está há mais de um século vagando pelo mundo quando se depara com a necessidade de criar conexão. É através da Dra. Euphronious (Annette Bening) que a criatura banca o deus a fim de ressuscitar uma companheira para aplacar seu vazio. Monstro e médica encontram o corpo de uma moça cercada de mistérios, tanto sobre sua vida mortal quanto sua existência pós-“revigorada”. Mas as consequências disso vão além de tudo o que eles poderiam imaginar.

Leia também

Como explicar em palavras coerentes a experiência que foi assistir A Noiva? Fiquei inquieta, transtornada e desesperada para falar com alguém sobre o que tinha acabado de testemunhar em tela, mas essa pessoa nunca apareceu e aquela confusão mental foi borbulhando dentro de mim, até que eventualmente eu precisei tecer essa análise.

A todo momento ficava esperando uma coerência narrativa que nunca veio. O filme se pendura em alegorias demais, ideias mirabolantes que não fazem sentido e, principalmente, ausência de motivações. Embora Jessie Buckley tenha entregado uma atuação 100 de 10, a todo momento me perguntava o que causava tanta raiva em sua personagem. A resposta já veio mastigada na divulgação: A Noiva representa a fúria feminina e, junto com ela, as injustiças infligidas na nossa carne dentro do subtexto feminista. Mas de onde veio isso tudo dentro da história? Eu particularmente odeio quando uma pauta é mal contada, e tive a impressão que algumas falas foram feitas para cortes na internet em páginas de garotas revoltadas.

Eram diálogos jogados, conflitos internos desconexos e uma influência na protagonista que, sinceramente, não encontro palavras no dicionário para expressar minha indiferença. O problema nunca foi retratar personagens femininas fortes, mas quando você pega um conceito existente como Frankenstein, certos temas merecem destaque. Seria incrível se Gyllenhaal optasse pela igualdade das criaturas, que o romance brotasse nas semelhanças entre eles. Mesmo sendo leiga no assunto, Frankenstein sempre foi retratado como alguém erudito, incompreendido e assustador. Ao ver essas qualidades na Noiva, eles poderiam criar essa conexão e perceber que o mundo não é feito para pessoas como eles – e aí sim, o mundo poderia pegar fogo. Mas nada disso aconteceu.

Eles corriam de um lado para o outro, sem saber bem o que fazer a não ser fugir enquanto um tentava conter os surtos do outro. Enfim, um completo caos! Caos que reflete até mesmo na fotografia – cenas agitadas, com cortes rápidos que não permitem ao espectador a estabilidade necessária para acompanhar momentos-chave. E nem todo IMAX do mundo consegue consertar a estética sombria que tentam retratar aqui.

E se você pensa que a presença de peso de Penélope Cruz, Peter Sarsgaard e Annette Bening traria algum sentido para a narrativa, se engana. Eles são meramente acessórios para criar conflito no mundo do casal.

Estou cansada de ver o potencial de Christian Bale ser jogado no ralo por conta de roteiros fracos. O que vislumbrei de seu Frankie seria colossal nas mãos de um roteiro redondinho, mas ele se vê tentando controlar e ditar a vida e os gostos de sua noiva na maior parte do filme – e não parece ser algo que a diretora condene ao longo da trama. Como esses problemas poderiam ter tempo de serem explorados por ambos se a protagonista fica resmungando sinônimos da mesma palavra no meio de conflitos durante a maior parte da história por conta da influência que a dominou?

No fim, a experiência é impactante – resta saber como cada pessoa vai absorver. Infelizmente, várias ideias se colidiram, não havia diálogos fluidos e fiquei refletindo como esse filme vai capturar a admiração de adolescentes que têm gosto pelo macabro. Fiquei decepcionada, pois estava ansiosa para ver o sucesso de Maggie Gyllenhaal como diretora. Talvez sejam necessárias novas tentativas e uma parceria com um roteirista de peso para soltar todo seu potencial criativo – porque isso, ela tem.

Compartilhar
A noiva poster

A Noiva

The Bride
16
País: EUA
Direção: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard, Annette Bening, Jake Gyllenhaal
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.