Crítica de filme

A Própria Carne

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.0

O terror é um gênero que não é um foco de projetos em escala nacional. Apesar de ser muito popular ao redor do mundo, parece existir um certo receio de produtoras brasileiras em depositar confiança e investimento em longas desse segmento. Por isso, ver uma produção independente como A Própria Carne apostando alto em uma história de terror é uma grata surpresa, que pode sinalizar uma mudança no mercado local, que seria muito bem vinda. Tive o privilégio de assistir o filme em sua pré-estreia em Belo Horizonte, algumas semanas atrás, com a presença do diretor Ian SBF e o produtor Alexandre Ottoni. Ouvi-los contar sobre os bastidores da produção, após a sessão terminar, evidenciou ainda mais um fato que pra mim já estava muito claro. Esse projeto é um resultado de paixão e trabalho duro, tendo sido gravado dentro de um período de 15 dias por uma equipe de profissionais que tiveram que lidar com as limitações de um filme independente e encontrar formas criativas de trazer sua visão para fora do papel.

A premissa do filme é simples, mas eficaz. Três desertores brasileiros da Guerra do Paraguai abandonam o campo de batalha e procuram ajuda para sobreviver em um ambiente isolado. Ao encontrarem abrigo em uma fazenda habitada por um velho senhor e uma jovem garota, os hospédes logo descobrem que os seus anfitriões não são exatamente quem eles parecem ser. O contexto histórico da Guerra do Paraguai como pano de fundo para o disparo da narrativa é uma ideia excelente e que traz holofote para um conflito que não é abordado com a frequência que deveria ser. Mas infelizmente o roteiro não desenvolve esse contexto para além de um esboço. Sabemos que os desertores abandonaram a guerra no nome da sobrevivência e que os anfitriões estão acostumados em interagir com os soldados, mas não temos um desenvolvimento maior sobre como viver dentro, e ao redor, dessa batalha realmente afetou os personagens que acompanhamos. É uma oportunidade perdida, que esvazia o longa em caracterização.

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Por outro lado, a construção de suspense em relação às verdadeiras intenções dos habitantes da fazenda é executada de maneira muito efetiva e é dentro dessa ação, que se encontra o grande trunfo do filme. Você percebe que algo está errado e que eventualmente as coisas irão ir de mal para pior, mas a direção de Ian não tem pressa em chegar nesse momento, brincando com as expectativas do espectador e fazendo o momento de reviravolta do longa surtir um peso ainda maior. É dentro desse contexto que o elenco encontrar a chance de brilhar com atores como Luiz Carlos Persy e Jorge Guerreiro transmitindo toda a imponência, paranoia e ansiedade de seus respectivos personagens com muito talento e firmeza. 

No geral, A Própria Carne é um filme que não tem muito interesse em construir uma fundação dinâmica para sua história ou sequer explicar a mitologia de seu universo de maneira mais detalhada, mas mesmo com esses aspectos que fazem com que o projeto não alcance todo o seu potencial narrativo, ele surpreende por ser um longa-metragem que reconhece a qualidade sensorial que o gênero do terror apresenta como oportunidade, utilizando essa porta para causar desconforto, apreensão e nojo em quem assiste à medida que os eventos do filme vão tomando forma. Deixo registrado a minha torcida para que o projeto independente do Jovem Nerd encontre sucesso e retorno financeiro durante sua passagem nos cinemas brasileiros. Todo risco merece ser admirado.

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A Própria Carne

A Própria Carne
18
País: Brasil
Direção: Ian SBF
Roteiro: Deive Pazos, Alexandra Ottoni, Ian SBF
Elenco: Luiz Carlos Persy, Jorge Guerreiro, Jade Mascarenhas
Idioma: Português

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