Crítica de filme

Atena

Publicado 7 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 2

Atena é um filme brasileiro dirigido por Caco Souza. Conta a história de Atena (Mel Lisboa), uma mulher que, após sofrer uma série de abusos na infância, passa a levar uma vida dupla: de dia, é uma lojista em Gramado; à noite, transforma-se em uma justiceira que mata abusadores. O longa, distribuído pela A2 Filmes, estreia nos cinemas no dia 31/07.

A premissa de uma femme fatale que caça estupradores não é novidade no cinema. Vale destacar os casos mais conhecidos. São eles: A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978, dir. Meir Zarchi) e seus remakes, na série de filmes Doce Vingança (2010–2015). Essa proposta tem inclusive, uma contraparte nacional — até mais próxima de Atena, pelo teor de sua história — o excelente Lilian, A Suja (1981, dir. Antonio Meliande).

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Convém lembrar quando lidamos com premissas já familiares ao público, é preciso atenção redobrada aos detalhes que podem fazer com que a obra se destaque entre as demais. Talvez o diferencial de Atena, em relação aos filmes citados, seja o fato de que a vingança da protagonista parte de uma motivação extremamente pessoal: seu próprio pai é o abusador.

Apesar dessa questão familiar, pouco mais faz o filme fugir da mesmice. Até aí tudo bem — diria um otimista. Afinal, se Atena não consegue se destacar, ao menos poderia seguir com competência o que já deu certo em experiências anteriores. Exemplos não faltam. Certo? Errado. Infelizmente, apesar de um início promissor, quase em tom de neo-noir, o filme rapidamente perde o ritmo. Do mesmo modo em que a paciência de quem assiste também rapidamente se dissolve.

No começo, acompanhamos a vingança desordenada de Atena. A isso se adiciona a investigação displicente da polícia e um jornalista — Carlos (Thiago Fragoso) — que se aproxima do rastro de sangue deixado por ela. A partir da metade do longa, no entanto, a polícia passa a colaborar com a protagonista (em troca de uma contrapartida jamais esclarecida), o jornalista se torna cada vez mais irrelevante, e a vingança antes ampla e simbólica se transforma em uma busca apressada — e pouco envolvente — por seu pai.

Convém lembrar que Caco Souza já dirigiu obras como 400 contra 1 – Uma História do Crime Organizado (2010). Aqui porém, demonstra uma falta de domínio sobre o gênero do thriller psicológico. Sua direção hesita entre o realismo e a estilização. Isso prejudica o tom do filme, que nunca se define claramente entre denúncia social e espetáculo de vingança. O tema da violência sexual e da violência contra a mulher não avança além de um diálogo superficial sobre a incompetência da polícia.

Essa guinada também parece ter afetado negativamente o desempenho do elenco. As exceções são Thiago Fragoso, que entrega um trabalho canastrão do início ao fim, e Lui Mendes — o eterno Mussum rejuvenescido de Os Trapalhões e a Árvore da Juventude — no papel de um policial hacker. Fragoso, em especial, destoa tanto do tom do filme que chega a surpreender. Na sua primeira aparição quando se apresenta como jornalista, sua atuação soa tão artificial que só é crível até o momento em que aparece numa redação.

Se não bastasse a queda de qualidade narrativa, Atena é também mal filmado e, sobretudo, mal editado. A montagem deixa tanto a desejar que, por vezes, parece que estamos assistindo a um filme ainda inacabado. Há cenas repetidas em looping, e até um microfone aparece visivelmente na principal sequência emocional do filme — um erro imperdoável para uma obra lançada nos cinemas.

Além de escorregões técnicos, o filme também falha no desenvolvimento psicológico da protagonista. A infância abusiva de Atena, embora central à narrativa, é tratada de maneira rasa, com flashbacks apressados e sem a profundidade necessária para justificar emocionalmente suas ações. O trauma vira pretexto narrativo, e não objeto de reflexão. Apesar de isso não sendo necessariamente um problema nesse tipo de filme, a forma que é feito em Atena, deixa muito a desejar.

Sendo assim, apesar de Caco Souza e sua trupe ambientarem a ação e o suspense de Atena em Gramado — a chamada “terra do cinema” — o filme só recomenda-se a quem realmente admira os atores, especialmente Mel Lisboa, cujo talento, infelizmente, a direção e a equipe acabam por minar com sua falta de tato (e de talento). Se desejam procurar obras assim, pelo apreço ao cinema brasileiro, melhor se manter agarrados a clássicos como Lilian, A Suja, até que se façam outros Rape and revenge bons por aqui.

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Poster Atena

Atena

Atena
16
País: Brasil
Direção: Caco Souza
Roteiro: Enrico Peccin
Elenco: Mel Lisboa, Thiago Fragoso, Lui Mendes
Idioma: Português

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