Desde 1927, com o clássico Metrópolis, passando por Mulher Nota 1000 (1985) e até produções japonesas como Chobits (2002), o cinema produz histórias de robôs femininos criados para atender aos desejos e necessidades de seus criadores. Em Make a Girl, que entra em cartaz nos cinemas de todo o país, o tema é revisitado, adicionando alguns avanços tecnológicos dos tempos de hoje.
O longa escrito e dirigido por Gensho Yasuda conta a história de Akira Mizutamari (Shun Horie, de Rent-a-Girlfriend), um jovem cientista passando por um bloqueio criativo enquanto se debruça sobre as pesquisas de sua falecida mãe. Ao ouvir de um amigo que acabou de começar a namorar que sua produtividade aumentou desde o início do seu relacionamento, Akira decide criar uma namorada artificial para si com a intenção de ganhar um “power up” na sua produtividade e assim avançar em suas criações tecnológicas. Chamada de No. 0 (Atsumi Tanezaki, de Spy X Family e Frieren), cabe a ela alavancar o desempenho criativo de Akira.

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No. 0, cujo criador nem se dá ao trabalho de lhe dar um nome, apenas a atribui um número, começa a frequentar a escola e trabalhar em um restaurante para aprender mais sobre o mundo que a cerca. Logo, ela começa a questionar a origem dos seus sentimentos. Seriam eles reais ou apenas linhas de códigos programadas por Akira?
Esse dilema por si só seria interessante o suficiente para subverter a premissa e trazer uma reflexão importante sobre inteligência artificial, algo tão em voga nos dias de hoje. Infelizmente, o longa prefere focar na frustração de Akira por não conseguir alcançar seus objetivos com a sua criação.
Se no início as cores quentes e as baladas pop que embalam a projeção indicam uma história leve e descompromissada, da metade para o fim o que se vê são várias situações abusivas que o protagonista submete sua criação.
Voltando às possíveis referências do filme, ele também parece se inspirar em outro clássico da animação japonesa, Neon Genesis Evangelion, para tratar das questões maternas do protagonista e revelar mais sobre a criação da No. 0, mas só consegue piorar a justificativa de suas ações.
Contando ainda com uma subtrama de um suposto vilão interessado na No. 0 que existe apenas para incluir uma cena de ação e criar algum tipo de clímax para a trama, a parte de final é de uma bagunça tonal tremenda, apelando até para um tipo de violência gráfica inexistente até os últimos minutos da projeção.
Resumindo, Make a Girl deixa escapar a chance de se posicionar de forma crítica dentro do tema da mulher-objeto na ficção científica. Embora seus temas tragam comparações com obras consagradas, o filme não parece interessado em trazer essas questões para os tempos de hoje. O resultado é uma obra que, ao invés de tensionar os limites entre tecnologia, gênero e subjetividade, termina por reforçar a antiga e problemática imagem da mulher criada para servir, seja como parceira idealizada, seja como mãe simbólica.



