A franquia de Detetive Conan é uma das maiores no Japão e os números confirmam isso de maneira categórica. O mangá criado por Gosho Aoyama foi lançado em 1994 e continua em publicação até hoje, com mais de 100 volumes e ultrapassando a marca de 1000 capítulos lançados quase que semanalmente desde seu início. A série animada de 1996 continua até hoje em sua trigésima terceira temporada contando com quase 1.200 episódios. Filmes da série são lançados em um ritmo quase anual e continuamente quebram os recordes de audiência dos filmes anteriores. Pegando carona no recente boom de animações asiáticas (ou inspiradas nelas) que se tornaram sucesso de bilheteria e de audiência, como Demon Slayer: Kimetsu No Yaiba – Castelo Infinito, Caçadoras K-Pop (nesse caso um verdadeiro fenômeno do streaming mundial) e Ne Zha 2: O Renascer Da Alma, a Sato Company traz pela primeira vez a saga do menino detetive para os cinemas brasileiros.
Detetive Conan – O Pentagrama de Milhões de Dólares é o vigésimo sétimo longa metragem da franquia e leva os personagens a cidade de Hakodate, em Hokkaido, onde terão que desvendar um mistério que pode mudar a história do Japão. Ao longo do caminho, outros personagens se juntam à trama, muitas reviravoltas e muitas explicações. Muitas. Mas muitas mesmo. Como este é meu primeiro contato com a franquia, o que parece um defeito pode ser tão somente uma característica inerente da própria série. E justamente essa falta de bagagem impede que um espectador alheio a série possa se divertir plenamente com o filme.

Clássico cult da animação japonesa chega aos cinemas brasileiros em versão remasterizada em 4K no seu aniversário de 40 anos.
E isso é algo que a própria película parece estar ciente. Os créditos iniciais tentam condensar a premissa inicial da série, contando rapidamente como o jovem detetive Shinichi Kudo teve seu corpo adolescente transformado no corpo de uma criança de 7 anos e por isso precisou criar uma nova identidade em Conan Edogawa (o nome é uma clara referência ao criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle) e passou a morar com a família de um detetive menos competente, solucionando os casos que aparecem pela frente. Mesmo que isso garanta um elemento episódico para a série, onde cada filme se trate de um caso inédito e isolado, a mitologia da saga já expandiu exponencialmente para além de sua premissa básica. Não só temos outros personagens que se juntam ao elenco principal, como alguns enredos são desenvolvidos ao longo dos filmes, deixando os espectadores de primeira viagem perdidos em suas motivações e relações.
O personagem-título nem mesmo é o protagonista de fato do longa. As atenções se voltam principalmente para Heiji Hattori, outro jovem detetive aliado de Conan, e Kaito Kid, uma espécie de antagonista/aliado de ocasião da equipe de investigadores. São eles que movem a trama com Conan apenas presente nas cenas onde a explicação de algum mistério e a resolução da trama se fazem necessárias. Fora isso, o longa insiste em introduzir personagens até quase o final da sua projeção. Em dado momento, mais um novo (talvez seja recorrente da série) personagem aparece para uma cena de ação e até os outros se perguntam entre si quem é o fulano que apareceu.
A trama do caso em si envolve espadas antigas que juntas apontam para um lugar onde possivelmente se encontra uma arma poderosíssima. Para descobrirem o local, vários enigmas são resolvidos na velocidade da luz em cenas expositivas que me fizeram ter pena dos dubladores dado o volume de informação e nomes mencionados. Como a série tem uma pegada educativa para as crianças, vários dos mistérios envolvem a história e a cultura japonesa, o que mais uma vez pode deixar o espectador brasileiro no escuro.
Ao menos a direção é dinâmica o suficiente para não deixar que esses dumps de informação arrastem a narrativa. Várias cenas de ação entrecortam esses momentos para manter a galera desperta no cinema. E é preciso dar o devido crédito à variedade das cenas de ação do longa. Temos perseguições por terra e pelo ar, lutas de espadas e tiroteios que quando precisam são bem animadas e divertidas de se ver.
Talvez começar pelo vigésimo sétimo filme não seja a melhor maneira de entrar no mundo de Detetive Conan, mas pode atiçar a curiosidade de alguns a procurar mais sobre a série. A Netflix recentemente lançou uma série de episódios avulsos que ajudam a pelo menos situar o espectador no universo de Conan. A Crunchyroll também oferece um extenso pacote de episódios da série para quem se interessar.
Comentário avulso: Curioso que além de ser um longa de ação com pitadas da história japonesa, ele também assume a função de propaganda turística da cidade de Hakodate, chegando até a exibir um clipe em live-action da cidade nos seus créditos finais. Não que seja novidade, várias séries japonesas, como Jaspion e Jiraya, tinham episódios claramente focados em anunciar lugares turísticos. Visite Hakodate!



