Crítica de filme

F1 – O Filme

Publicado 9 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.5

Um conceito vital em jogos é a narrativa emergente: quando ‘histórias’ surgem sem roteiros, apenas a partir da interação entre regras, jogador e espaço. Essa ideia pode ser vista em cartas ou esportes, que encontram nesse ideal formas de cimentar momentos ou encontrar beleza e até poesia em feitos que, a olho nu, parecem apenas arbitrários: arremessar uma bola na cesta ou puxar uma carta do baralho. Narrativas emergentes são o que brota da colisão entre estrutura e acidente.

Em F1 – O Filme, Sonny (Brad Pitt), um viciado em apostas, piloto freelancer e motorista em Nova York, é convidado por um rival de longa data, Ruben (Javier Bardem), para salvar sua escuderia de ser desmantelada pelo conselho de acionistas. Sonny, grande conhecedor do esporte que praticara há décadas, retorna mais velho, maduro e sábio. Seu plano? Contorcer as regras e assumir perdas imediatas para conquistar vitórias estratégicas.

Leia também
A Noiva
A Noiva

Maggie Gyllenhaal promete uma tragédia gótica feminista, mas sua condução fragmentada desperdiça os talentos de Jessie Buckley & Christian Bale.

Desfaz-se aqui um equívoco: a Fórmula 1 não é um esporte individual. O piloto é apenas a peça mais visível de um ecossistema que se retroalimenta. O longa brilha ao mostrar esse trabalho coletivo — mesmo sem tratar diretamente do campeonato paralelo das construtoras.

Embora embalado como filme sobre corridas ou um ‘sports drama‘, F1 é uma obra sobre jogos: game design e meta-jogo (o jogo dentro do jogo). Das estratégias na pista aos movimentos para brecar as decisões do conselho, Sonny está numa esfera fazendo movimentos que reverberarão em outra. Os primeiros pontos da equipe (na Fórmula 1, pontuam os dez primeiros colocados) vêm de uma estratégia ousada — e talvez suja, uma tônica de Sonny — que consiste em autoflagelar o próprio carro, para que, com a entrada do safety car, seu companheiro de equipe consiga manter a posição.

Para levar a APXGP a uma vitória, Sonny mergulha nas entranhas do game design e explora brechas, aceita punições e cria uma cultura para o futuro. Perde cem mil dólares por uma asa quebrada, mas ganha o respeito da equipe ao sacrificar seu carro pela posição do companheiro. Companheiro esse que detesta sua presença, até que a tensão entre eles seja dissipada através de um… jogo: Poker, Texas Hold’em. Sonny, novamente, manipula a partida e perde, mas para forjar confiança em seu parceiro.

Quando Sonny define o estilo que visa para a equipe, comunica a Kate (Kerry Condon), diretora técnica da APX, que a identidade deles será o combate. Ela então projeta alterações adequadas a essa proposta, forjando um carro moldado para guerras nas trincheiras da Fórmula 1.

Sonny não quebra regras; estica-as até o limite, muitas vezes agindo de má-fé. Nunca tem o benefício da dúvida — e aceita isso. Pode perder nas planilhas, mas vence no tabuleiro invisível.

Joseph Kosinski dissolve complexidades da F1 (estratégias de pneus, pit stops) em cenas de tensão acessíveis. A APX não luta pelo título, mas pela sobrevivência. Cada erro ou acerto traz uma lupa dramática que os amplifica.

O diretor faz um bom uso do IMAX. Percebe-se que o projeto não “cai” por questões mercadológicas na tecnologia, mas surge a partir dela. As cenas de corrida são particularmente boas: a câmera colada ao carro e o mundo em movimento criam imagens intrigantes, porque a velocidade está lá, mas é o cenário que corre, e permanecem imóveis as grandes bestas do asfalto.

Mesmo com o drama particular virtualmente inexistente — mero pano de fundo para germinar narrativas emergentes —, o filme sabe extrair encanto dessa superfície: um velho rosto rejuvenescendo no asfalto, histórias de azarões, pequenas vitórias amplificadas. Sabe suas forças, e as explora com felicidade.

Compartilhar
f1 poster

F1: O Filme

F1: The Movie
12
País: EUA
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Joseph Kosinski, Ehren Kruger
Elenco: Brad Pitt, Kerry Condon, Javier Bardem, Damson Idris
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.