Crítica de filme

Foi apenas um acidente

Publicado 2 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 4.5

Em Foi Apenas um Acidente (It Just Was an Accident), Jafar Panahi (Táxi Teerã) reafirma sua posição como um dos grandes nomes do cinema contemporâneo. O filme franco-iraniano venceu a Palma de Ouro em Cannes e surge como concorrente de O Agente Secreto ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Além disso, pode ter fôlego para disputar uma vaga entre os indicados a Melhor Filme em 2026.

A história já começa com ares de suspense clássico. Vemos uma família viajando de carro quando três eventos perturbam a viagem. No primeiro, temos a nítida impressão de que a família atropelou alguém. Logo em seguida percebermos que, na verdade, tratava-se apenas de um buraco na estrada. No segundo momento, aí sim, a família atropela um cachorro. A filha (Delnaz Najafi) fica triste com o ocorrido, e o pai (Ebrahim Azizi) tenta seguir viagem, ainda bastante perturbado com o acidente. Por fim, logo depois, o carro começa a apresentar problemas, provavelmente em decorrência dos eventos anteriores. O pai então encontra uma oficina mecânica, não muito longe de sua casa.

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A partir da chegada à oficina, o filme passa a ganhar ritmo e direção. Um dos mecânicos, Vahid (Vahid Mobasseri), fica completamente perturbado com a presença daquela família e passa a seguir os passos do pai. Nesse momento, percebemos que o homem tem uma prótese na perna. Vahid decide então sequestrá-lo e enterrá-lo vivo no meio do deserto.

Até esse ponto, a narrativa sugere que Vahid atua como uma espécie de justiceiro. Ele parece suspeitar que o homem tivesse atropelado uma pessoa ou cometido algum crime semelhante. Gradualmente, porém, o filme revela que o mecânico reconhece naquele homem o seu antigo torturador, responsável por sua prisão e tortura anos antes.

Durante o interrogatório, o sequestrado afirma a Vahid que não sabe de nenhuma tortura, o que faz o mecânico perder a certeza de que realmente capturou a pessoa certa. A partir daí, ele passa a procurar outras vítimas que estejam dispostas a reconhecê-lo. No entanto, todos conhecem esse homem apenas por fragmentos: um reconhece as feridas na outra perna, outro apenas pelo jeito de mancar, e há ainda quem o reconheça somente pelo cheiro. Em momentos que remetem a Ação entre Amigos (1997), filme dirigido por Beto Brant, eles debatem se devem ou não assassinar o homem.

Foi Apenas um Acidente combina com precisão o suspense com uma boa dose de humor. Os sequestradores não são profissionais e passam boa parte do tempo circulando pela cidade com o homem amarrado dentro de uma caixa. Isso gera momentos geniais — como quando a van quebra no meio da cidade e desconhecidos se juntam ao grupo para empurrar o veículo em plena avenida.

Outro ponto positivo é o debate moral que orienta o filme. Além da questão amplamente conhecida entre justiça e vingança, o filme propõe uma reflexão instigante sobre a moral pública. Nessa sociedade iraniana retratada, as pessoas parecem se mover pelo silêncio consentido: entendem que algo não está certo, mas seguem em frente, cobrando subornos, é claro.

Ainda assim, dentro dessa moral existe algo questionável, que talvez seja o maior demérito do filme. A obra assume — talvez como contribuição francesa, já que o filme é integralmente rodado no Irã — uma postura excessivamente didática, expondo em diálogos muito diretos e até destoantes do restante do filme (muito mais pautado por sutilezas) questões políticas locais.

Provavelmente, a intenção seja tornar a narrativa mais palatável para o público ocidental — o que funciona para nós aqui no Brasil, que sabemos pouco sobre a história do Irã —, mas o resultado soa carregado e panfletário, algo que custa caro em um filme cujo teor político já está evidente no roteiro e nas histórias dos personagens. Nada que realmente comprometa a experiência, mas é perceptível. Isso ocorre porque Foi Apenas um Acidente foi concebido, infelizmente, para uma audiência estrangeira, já que o filme foi rodado clandestinamente e Panahi é persona non grata em Teerã.

Ao dialogar com a realidade em que foi gravado, o filme completa sua camada de complexidade, aprofundada pelo conhecimento progressivo que adquirimos dos personagens ao longo da obra. Destaque para Shiva (Mariam Afshari), fotógrafa, cuja prisão entendemos em parte por sua aparência — roupas e cabelo fora do padrão iraniano —, mas que, na vida real, correu grande risco ao circular pelas ruas vestida com roupas lidas como masculinas e sem o hijab, o tradicional pano que cobre a cabeça das mulheres no islã.

As tomadas de rua e os planos dentro da van transmitem com precisão a tensão constante de todos estarem fazendo algo errado — o que, na vida real, de fato estavam, já que não possuíam autorização do governo para filmar. Isso fica claro, por exemplo, em uma cena em um local afastado na cidade. Nesse momento, os personagens discutem o destino do suposto torturador e dois seguranças aparecem exigindo autorização e, obviamente, cobrando suborno para manterem o silêncio. A tensão é tão viva, que entrega o teor metalinguístico do momento.

Foi Apenas um Acidente é uma obra densa, mas extremamente cativante. É um filme que merece todos os louros que vem recebendo pela coragem de seu diretor e elenco, além de sua história surpreendente e emocionante. O filme se afirma como uma joia imperdível, capaz de contrariar — e muito — os clichês associados ao cinema iraniano.

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foi apenas um acidente poster

Foi Apenas Um Acidente

It Just Was an Accident
14
País: França
Direção: Jafar Panahi
Roteiro: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Delnaz Najafi
Idioma: Persa

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