Crítica de filme

Frankenstein

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.5

A DOR DE SER TRAZIDO AO MUNDO SEM CONSENTIMENTO
Ainda criança conheci a estúpida criatura verde que rapidamente se mostrou o monstro mais desinteressante em todo o catálogo de horror clássico de Hollywood. Pouco espaço havia em minha vida para um cientista maluco e sua criação desajeitada. Que surpresa incrível foi então descobrir (ao ler o livro quando adulto) que O Prometeu Moderno escondia em suas páginas algo muito mais valioso e profundo do que os filmes levaram a acreditar.

Frankenstein, a obra-prima de Mary Shelley, é uma obra com temática abrangente: dor existencial, propósito de vida, solidão, rejeição social, os perigos da ambição, vingança, morte e, é claro, a responsabilidade moral que um criador tem sobre sua criação. É um livro lindo, poético, filosófico e que pouco marca em semelhança com suas adaptações. Uma pena.

Por toda a minha vida adulta então tenho sonhado com uma adaptação adequada, que colocasse em tela todo o brilhantismo que vi em tinta. Del Toro sonhou também; esse é um projeto que luta pela sua materialização há mais de 30 anos. E então? Finalmente podemos nos regozijar com Frankenstein como idealizado em 1818? Não. Ainda não…, mas tivemos avanços!


CONDENADO A VIVER

Se filmes anteriores atuam mais como uma história completamente nova com uma leve inspiração na narrativa de Shelley, ao menos o novo filme de Del Toro é reconhecível como uma adaptação da obra original.

A Criatura (Jacob Elordi) não é apresentada como um humanoide vazio e idiota, mas sim uma sentimental e eloquente manifestação de fúria, indignação e revolta justificada. Victor Frankenstein (Oscar Isaac), por sua vez, não é um cientista maluco genérico, mas um visionário que acaba atormentado por sua insensatez e abandono de sua própria criação.

Também existe fidelidade em momentos narrativos e na ordem em que a maioria dos eventos se apresenta, mas toda semelhança com a obra original se desfaz nas personagens secundárias e na estrutura narrativa. Não vale a pena entrar em detalhes sobre como o filme segue seus próprios caminhos, mas algumas dessas mudanças cobram um alto preço; em especial a decisão de simplificar ao extremo o desejo da Criatura por uma companheira, e a subsequente angústia de Frankenstein ao negá-la ao seu filho.


A VIDA, AINDA QUE APENAS ACÚMULO DE ANGÚSTIA, É PRECIOSA

Chega então de comparações; o filme não é, e não chega perto de ser, tão bom quanto sua inspiração, mas como se sustenta por conta própria?

Temos nessa versão atual um otimismo muito maior quanto ao destino da Criatura e quanto aos temas em si. Aqui o determinismo é mais bonito, o romance é menos trágico e a filosofia é menos sombria. Não tenho dúvidas de que essas são escolhas voltadas para a reflexão pessoal de Del Toro (com as quais eu tendo a concordar), mas elas são aplicadas de forma melodramática, o que enfraquece o peso emocional da obra.

O sofrimento da Criatura deveria causar desespero e empatia na audiência, não pena. A culpa e angústia de Frankenstein seriam mais poderosas como armas de reflexão, não de redenção. E os debates e discussões entre os dois jamais poderiam se limitar a um final carregado de esperança.

Tecnicamente falando, tanto Elordi quanto Isaac estão bem em seus papéis, mas o mesmo não pode ser dito de Christoph Waltz – aqui vivendo Heinrich Harlander, em uma rara atuação ruim – ou de Mia Goth – no infeliz e mal utilizado papel de Elizabeth.


DEVERIAS SER ADÃO, MAS ÉS LÚCIFER

É no visual, entretanto, que a maior das falhas do filme se revela, e Del Toro comete sua maior traição. O filme não é apenas incompetente em seu visual, é feio, incoerente e incapaz de transmitir qualquer verossimilhança. A verdadeira tragédia é que o diretor responsável por maravilhas visuais como O Labirinto do Fauno e A Forma da Água tenha construído aqui uma aberração tão sem vida e tão desconexa quanto a Criatura nos filmes clássicos de Hollywood.

É o suficiente para estragar o filme? Aos meus olhos, não, mas certamente é o suficiente para negar a tais olhos o brilho.

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Frankenstein

Frankenstein

Frankenstein
18
País: Estados Unidos
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Mary Shelley
Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz
Idioma: Inglês

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