Crítica de filme

Hamnet – A Vida Antes de Hamlet | Crítica 1

Publicado 2 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 4.5

Hamnet, novo filme de Chloé Zhao, vencedora do Oscar de Melhor Direção por Nomadland (2020), que chega nos cinemas brasileiros dia 15 de janeiro, é um grande exemplar dos talentos da cineasta, uma artista de honestidade ímpar. Adaptado do livro de mesmo título da autora Maggie O’Farrell, que assina o roteiro junto de Zhao, a história é uma biografia fictícia, usando registros históricos acerca da vida de William Shakespeare (Paul Mescal) para imaginar os eventos que o levaram a criar Hamlet, a famosa peça britânica, considerada uma das maiores obras da história da literatura mundial. O que começa como um romance intenso ganha consequências devastadoras quando uma tragédia atinge a família do poeta. 

A premissa do livro de Maggie O’Farrell permite com que o filme exista como uma obra independente. O espectador não precisa compreender Shakespeare de modo complexo para que o que está acontecendo em tela funcione. A narrativa não está preocupada em decifrá-lo em um nível técnico, mas sim em contextualizar a sua vida através de uma releitura íntima. É claro que o longa, em momentos oportunos, aborda a relação especial de William com as palavras, e oferece referências de seu trabalho que são possíveis de serem identificadas pelos seus admiradores, mas o seu foco, quando se trata do personagem, mora em desconstruir aquela figura como homem, marido e pai. 

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A direção de Zhao continua chamando a atenção por sua qualidade naturalista, com o uso de planos abertos construindo enquadramentos ricos em beleza que refletem a misticidade presente em seu texto. Aqui, a floresta é mais do que uma ambientação, operando como uma forma de conexão com o interior e a essência. As árvores viram abrigo, raízes servem como apoio e a terra traz companhia. Nesse sentido, a direção do filme, alinhada a fotografia orgânica de Łukasz Żal, amplifica diretamente a composição da personagem de Agnes (Jessie Buckley), uma mulher de autenticidade irreverente que possui uma relação espiritual com a natureza, uma tradição compartilhada entre as mulheres de sua família ao longo de gerações. O trabalho de figurino também é efetivo em traduzir suas particularidades, com o vestido vermelho da personagem sempre em contraste com os elementos em sua volta. 

A mitologia em torno de William Shakespeare inspirou a criação de Hamnet, mas Agnes, sua esposa, é sem dúvidas a alma do projeto, não só devido ao excelente trabalho que o roteiro exerce em estabelecê-la como o centro gravitacional da história, mas principalmente por conta da atuação monumental de Jessie Buckley. A atriz desaparece completamente dentro da personagem, construindo e habitando ela com uma visceralidade que golpeia o espectador constantemente. Ela deixa toda sua vaidade de lado e se entrega inteiramente ao papel, indo do sussurro ao grito, da realização a culpa e comunicando com o seu rosto, o que palavras não são capazes de descrever. Paul Mescal, um ator que é capaz de internalizar sentimentos com uma convicção impressionante, e Jacobi Jupe, ator mirim que dá vida ao filho do casal com uma maturidade além de seus anos, estão excelentes e também são destaques na produção. 

O projeto abraça a sinceridade em detrimento do cinismo e evidência que dar vida a um ser humano é escolher depositar parte de si em outra pessoa. Tratando essa relação como um laço divino que atravessa o ordinário e ressignifica a jornada de um indivíduo no mundo. Essa construção carregada de sentimento torna o ponto de virada do filme, a morte do pequeno Hamnet, ainda mais devastadora do que ela já seria dado o seu contexto trágico. Quando Agnes grita em seu momento de perda, não estamos assistindo apenas aquela relação física sendo ceifada, mas também a personagem, que transformou a maternidade em seu grande propósito, sentindo ele ser dilacerado no silêncio de um coração.

Mas Hamnet também ressignifica esse silêncio ao explorar as diferentes formas em que o luto se materializa, traçando um ponto em comum entre elas. Agnes se mantém presente e externaliza seus sentimentos, mas não consegue compreender a profusão deles. Já Shakespeare internaliza sua dor e só consegue comunicá-la através de sua escrita. Esse desalinhamento afasta o par e pinta a relação de ambos com cores de frustração. Mas no seu inesquecível clímax, quando Agnes assiste à peça de Hamlet pela primeira vez, o filme revela a sua verdadeira força narrativa. A cena em que a personagem finalmente encontra compreensão ao validar a expressão artística de seu marido, se enxergando dentro dela, em um momento de catarse comunal é extremamente comovente. É uma sequência que Chloé Zhao executa com maestria e que reforça o poder da arte como um palco para a cura. Uma cura que, mesmo não sendo eterna, é capaz de espantar a solitude. “O resto é silêncio”, mas ao ser imortalizado por meio de um manifesto artístico, ele se torna o eco de uma memória eterna. 

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Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Hamnet
A14
País: EUA, Inglaterra
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Maggie O'Farrell
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe, Emily Watson
Idioma: Inglês

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