Aristóteles dizia que a catarse é aquele misto de emoções que nos atropela e, no fim, nos limpa. Assistir a Hamnet – A Vida Antes de Hamlet não é apenas consumir uma narrativa histórica; é atravessar exatamente esse processo. O filme opera em uma emoção constante, onde os sentimentos não são meramente sugeridos, mas vividos à flor da pele.
A obra se sustenta no sentimental: a dor dilacerante de uma mãe que perde, o vazio existencial de um Shakespeare assombrado pelo que não pode nomear e, finalmente, a arte como cura. É fascinante observar como a direção de Chloé Zhao molda o luto não como um estado estático, mas como uma matéria-prima maleável. A fotografia impecável do filme não serve apenas ao esteticismo, ela emoldura essa melancolia com uma luz que parece emanar da própria perda, transformando o cenário de certa forma psicológico dos personagens.

Com Hamnet, Clhoé Zhao acertou em cheio.
No centro desse turbilhão, a atuação de Jessie Buckley é simplesmente arrebatadora. Buckley entrega uma performance visceral, transformando cada silêncio em um grito de angústia. É através de seu rosto, capturado com uma intimidade quase intrusiva, que a dor de Agnes deixa de ser apenas um relato para se tornar uma ferida.
O que testemunhamos em Hamnet é o peso do “não dito” sendo exorcizado pela criação. No momento em que a angústia de Agnes encontra a pena de William, o vazio é transformado em verso; o luto, enfim, torna-se imortalidade. Ao final, a experiência aristotélica se completa. Não saímos da sessão apenas comovidos, mas, de certa forma, curados. Hamnet nos lembra que, se a vida é capaz de abrir abismos, a arte é a única ferramenta capaz de preenchê-los.



