História de Um Casamento (Marriage Story) é certamente um título ilusório para quem vem desavisado. Lendo-o, a sensação é a mesma passada na da introdução do longa: algo bom, caloroso, a literal história de um casamento. Mas não. Do mesmo modo é a atmosfera, que começa tranquila, mas logo começa a rachar, descascar e quebrar.
Noah Baumbach, diretor já bem estabelecido e altamente artístico, impõe um maravilhoso ar de “dramédia” para o longa, com bastante sarcasmo e humor cru em muitos momentos. É incrível quando algo absurdo acontece em cena e logo há um corte para outra situação desconectada da anterior. Assim como é ótimo se sentir um espectador vendo tudo por uma janela, como se uma fofoca cheia de pessoas exageradas e despropositadamente histéricas se desenrolasse.

Joel Edgerton entrega uma performance contida, onde o peso do mundo é carregado em cada olhar, cada gesto.
O filme aborda de forma pontual como um término aparentemente amigável pode esconder milhares de quilos de problemas, assim como, para a criança, mesmo sem entender direito o que acontece, pode ser algo que marca pra vida toda. A inocência não chega a ser quebrada, porém as coisas já não são as mesmas. Acho acertado, também, a amostra dos efeitos quase invisíveis de uma pessoa na outra.
Ah, e não se pode esquecer da crítica feita ao “mercado do divórcio”, com advogados predatórios que instigam ódio e maldade nos clientes, além, é óbvio, de incentivar que retirem o dinheiro um do outro para que possam ganhar mais para si. Essa crítica é brilhantemente encarnada por Laura Dern, que encorpora uma megera simpática e de sorriso fácil, mas que ao mesmo tempo não tenta esconder o quão venenosa pode ser para conseguir o que quer.
A sensação de estar vendo uma “fofoca”, aliás, é também desafiada por Baumbach, já que todo casamento é composto por duas pessoas – e sim, muitos podem concordar mais com um só lado -, entretanto, a direção não se importa com isso e coloca a plateia para contemplar os dois. Tanto ele, quanto ela, têm seus motivos para estarem naquelas circunstâncias, e os dois têm suas vidas mostradas. Assim, existe sempre um certo debate sobre o que é o quê, embora eu não ache que o roteiro foi tão justo. Uma sensação forte que fica é a de a personagem de Scarlett estar recebendo muito foco e, não o bastante, mais razão. Esta sensação, no entanto, não retira nada da complexidade dos personagens.
Embora haja uma boa dose de humor, quando é necessário, a obra aperta o coração do espectador com muito drama e do melhor tipo: não faz apenas querer chorar, mas querer fugir. São situações que conversam com quem vê, e que provocam sentimentos fortes, o que demonstra a sensibilidade do diretor. O roteiro é brilhante em seus diálogos verossímeis, bem como nas cenas muito realistas.
Existe muito detalhismo aqui, muito esmero na montagem das cenas e de sua construção, assim como elementos do enredo que são passados e repassados. A própria narração do casal ao início é comprovada durante a obra inteira, fazendo com que as ações de cada um batam exatamente com o que foi dito.
E o que seria disso aqui sem o casal? Adam Driver devora as cenas, praticamente todas nas quais está presente. É brilhante o quanto o ator transita entre emoções, assim como sua voz viaja de forma tão bonita de ouvir. A forma como ele encarna raiva, mágoa e frustração é encantadora. Scarlett é igualmente majestosa, embora (opinião pessoal) Adam se saia melhor. Ela é gentil ao falar e quase nunca sai dos eixos, mas sempre parece que está prestes a explodir. Quando os dois precisam digladiar e entrar em combustão, o resultado é assustador.
História de Um Casamento é um belo e triste conto sobre a ruína que surgiu entre duas pessoas. Dirigido com talento e confiança, atuado com fervor e motivação, criado com realidade, esse filme ressoa naqueles que veem querendo ver. É de fato uma obra de arte.



