Michael Chaves, o diretor de Invocação do Mal: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites), foi também responsável por dirigir, respectivamente, A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona), Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It) e A Freira 2 (The Nun II), filmes esses que possuem até algumas qualidades, mas que no fim não conseguiam passar da mediocridade. Creio que um dos maiores problemas de Chaves e que ele demonstrou em todos esses projetos foi a sua incapacidade de ser original, de impôr a si mesmo, e ao invés disso, copiar ou emular a forma de James Wan (Invocação do Mal, Invocação do Mal 2). O resultado eram filmes estilisticamente identificáveis e sustos que até pegavam alguns, mas nunca com a emoção, nunca com o desenvolvimento, nunca com razão. É então que chegamos a 2025 com o aparente último filme da franquia principal desse universo, e com ele a boa notícia que Michael Chaves foi capaz de entregar um trabalho mediano.
Pelo que parece, Chaves desenvolveu senso narrativo e emocional, entregando uma obra bem equilibrada que não se compromete e nem compromete a ele. É claro que existem momentos em que o cara ainda quer dar uma extrapolada, e isso resulta em planos e efeitos que são até legais, mas que não levam a lugar nenhum e nem comunicam nada. Por exemplo, ao fim do filme existe um momento que a câmera voa até o céu e então volta até a casa onde as coisas acontecem, e por mais que seja legal, em nada contribui.

Maggie Gyllenhaal promete uma tragédia gótica feminista, mas sua condução fragmentada desperdiça os talentos de Jessie Buckley & Christian Bale.
No que diz respeito ao terror em si, Chaves saiu da mera emulação e agora segue as cartilhas do gênero: construção básica de tensão a partir de momentos que antes eram felizes e depois serão retomados de forma macabra, exploração do silêncio, planos longos focando em objetos, aquele clima feliz de uma família normal. Ele acerta, devo dizer, ao usar jumpscares sem trilha sonora estourada, o que adiciona mais profissionalidade ao longa, como se ele não estivesse forçando ninguém a se assustar. O uso do medo é puramente por entretenimento, sem profundidade ou subverção de quando o susto vem. A tensão também é bem comum, com aquela trilha que vai subindo, subindo, subindo e então parando. Existe também a necessidade de guiar os atores para fazer tudo daquela forma lenta pra causar tensão, ou olhando para trás de forma dramática. São situações esquemáticas que não ferem ninguém, mas também não causam nada de especial nos sentidos.
As criaturas existentes no filme são bem qualquer coisa, para mim, e as achei incapazes de provocar qualquer coisa. O máximo que conseguem é aparecer do nada para assustar, mas se continuam em foco, logo tudo de ruim se esvai e só sobra o: “nossa, que CGI estranho”. Contudo, pra ser justo, existe uma cena lá pros finalmentes em que Chaves trás de volta a famosa boneca Annabelle e, embora não passe de fanservice, foi uma cena que me provocou bastante medo. No geral, o visual não é dos mais inventivos e creio que a franquia já teve dias melhores nesse sentido. Além disso, o roteiro é inconsistente no que tange à sua ameaça. Ora ela é absurdamente poderosa, conseguindo causar alucinações, visões, possessões e até machucar fisicamente, ora não parece ser capaz de nada. E nem mesmo ficam claros seus poderes e o funcionamento.
Nota-se que Chaves tentou, além de melhorar no terror, melhorar também no desenvolvimento de suas tramas. Infelizmente o pouco progresso que ele fez em um lado não se refletiu em nada no outro. O filme tem duas horas e por mais de uma o espectador tem que assistir a um drama arrastado, longo e cansativo em que tudo que se faz é conversar e conversar. Não minto, a tentativa de trazer mais ainda os Warren para o centro é boa, e fazer o espectador gostar mais deles colocando elementos como casamento e o próprio amor familiar para nos dar a ilusão de que algo ruim pode acontecer com eles é bom, no entanto, a sensação que dá é que o diretor perdeu a mão e deixou as coisas durarem tempo demais. O drama parece oco e os personagens, ainda mais. Chaves interpretou que aposentadoria é o mesmo que esquecer tudo que você já fez, então deixou Ed e Lorraine Warren completamente jogados no canto.
Vera Farmiga está, no que posso resumir em uma palavra: entediante. Sua interpretação já foi melhor, mas agora ela parece apenas fazer cara de paisagem para todos os lados e esquecer que é uma grande “caçadora” de demônios, distribuindo medo a rodo. Patrick Wilson continua nos exatos mesmos moldes desde o primeiro filme, ou seja: sem marcas. Mia Tomlinson parece não conseguir tirar verdade de sua personagem, e nem consegue convencer nos seus dramas, tornando-os muito vazios. É realmente o ponto mais baixo da franquia em termos de atuação.
O ato final é, também, outra parte complicada aqui: parece que tudo começa a se resolver apressadamente e as coisas vão acontecendo numa velocidade muito grande. O filme gasta tanto de seu tempo criando dramas e entregando cenas vazias de emoção que, ao fim, pareceu não saber mais como guiar a trama e foi apenas empurrando com a barriga para se finalizar. Ah, e a própria solução para derrotar o inimigo é bem… Questionável. Foram escolhas questionáveis que, no fim das contas, jogaram Chaves de volta à mediocridade.
Enfim, Invocação do Mal: O Último Ritual, segue protocolos narrativos fixados na maioria dos filmes de terror. Michael Chaves saiu da emulação de James Wan e conseguiu entregar uma obra que parece qualquer outra, sem sair do lugar. Suas escolhas são normais, sua condução é normal e, enfim, a conclusão é normal. É isso que esse filme é: um grande e total filme comum. Sem grandes emoções, sem um bom terror, sem marcas emocionais, nada.



