Passados 96 anos desde sua primeira aparição no curta-metragem Steamboat Willie (Walt Disney e Ub Iwerks, 1928), a versão original do adorado Mickey Mouse deixou de ser uma propriedade exclusiva da Disney, o qual se tornou seu símbolo máximo, e entrou para o domínio público, trazendo grandes possibilidades para criadores do mundo todo de se utilizarem desse personagem tão icônico em suas narrativas. Seguindo uma certa tendencia marcada pelos bizarros filmes do Ursinho Pooh assassino, Mouse Trap: A Diversão Agora é Outra mescla o gênero do slasher com elementos de filme B para esse mundo. O resultado, porém, é dos mais decepcionantes e esquecíveis.
Na trama, acompanhamos o aniversário de 21 anos de Alex (Sophie McIntosh), que está presa no fliperama em que trabalha, no turno da noite. Seus amigos decidem surpreendê-la, mas um assassino mascarado vestido como o Mickey (Simon Phillips) decide jogar com eles um jogo que ela deve participar para sobreviver. Assim, um a um, os jovens ficam frente a frente com o seu destino, até que é a vez de Alex.

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A pressa e a corrida pelo marco de ser um dos primeiros projetos fora da Disney a se utilizar de Mickey, subvertendo totalmente a sua imagem, talvez seja a verdadeira armadilha em Mouse Trap. A sensação que passa é que o projeto de filme B de slasher já estava sendo executado, e as pressas foi encaixado uma máscara do personagem no assassino e uma rápida cena de introdução utilizando imagens do curta-metragem original.
O filme se divide em dois núcleos principais, sendo um deles em uma prisão, onde a personagem Rebecca (Mackenzie Mills) é interrogada por dois detetives (Darmir Kovic e Nick Biskupec) sobre os acontecimentos do fliperama. Já o segundo com o foco em Alex e as perseguições do assassino da máscara de Mickey.
O núcleo da prisão é exaustivo, interrompendo a pouca progressão da narrativa. Com uma decupagem simples, diálogos fracos e pouco interesse sobre a figura de Rebecca e dos detetives, esse seguimento poderia ser eliminado do filme que não faria a menor diferença.
O longa de baixo orçamento (cerca de 800 mil dólares) é carregado de erros técnicos, desde sombras do cinegrafista em cena a equipamentos técnicos aparecendo em reflexos, passando por erros de continuidade e quebras de eixo. A decupagem e composição de enquadramentos em nenhum momento passam a tensão tão característico de filmes do gênero. O acumulo de funções concentradas no diretor Jamie Bailey (que também é produtor, operador de câmera e montador do longa-metragem) fazem Mouse Trap: A Diversão Agora é Outra ser falho em tudo em que se propõe.
As execuções também são um grande problema. Mesmo sendo um filme de curta duração, ele demora para engrenar ao tentar estabelecer os relacionamentos do grupo de amigos de Alex, sobretudo um triângulo amoroso entre a protagonista com o tímido Marcus (Callum Sywyk) e o rebelde Ryan (Bem Harris). O primeiro ataque do assassino mascarado, ocorrendo fora de cena, é decepcionante e nada impactante. O desinteresse pelos personagens é tanto que o espectador de forma sádica deseja ao menos um senso se ameaça com mortes ou situações criativas.
Se por um lado ele está longe de ser levado a sério (desde sua introdução com letreiros de Star Wars e um irônico texto sobre o não envolvimento da Disney no projeto), a narrativa fica em um caminho cinzento, onde não se esforça para causar nem sustos de um filme de terror nem risos involuntários, do tipo “tão ruim que fica bom”. O que sobra aqui é uma grande indiferença, que talvez seja o pior sentimento de se guardar de uma obra.
O assassino é pouco aproveitado também. Sua introdução sobrenatural é estranha abrupta, na medida em que apresenta um poder de teletransporte para auxiliar nas perseguições das vítimas. Há apenas um momento onde ele passa um pouco de carisma ao zombar de Alex após uma das mortes. O assassino possui uma fraqueza um tanto inusitada para desenvolver um embate com os personagens. Porém, a resolução é uma das piores já vistas em filmes de slasher.
Mouse Trap: A Diversão Agora é Outra é um desperdício de potencial do início ao fim, até mesmo para um filme de baixo orçamento, onde aposta em um único artificio da polemica do uso de Mickey em um terror. É louvável ainda que mesmo com seus inúmeros defeitos, seja aberta essa possibilidade de democratização do uso de personagens icônicos de forma livre e sem interferência de grandes estúdios como a Disney. O que resta aqui é a torcida para que a próxima tentativa de subversão com a figura do Mickey seja melhor sucedida.



