O diretor Derek Cianfrance é conhecido pelos dramas arrebatadores como Namorados Para Sempre e O Lugar Onde Tudo Termina, além de séries dramáticas mais recentes como I Know This Much Is True para a HBO. Nessas obras, a melancolia é um dos sentimentos mais recorrentes. No entanto, seu mais novo projeto cinematográfico, O Bom Bandido, Cianfrance cria uma quase fábula para contar uma história baseada em incríveis fatos reais.
O longa é baseado na história de Jeffrey Manchester (interpretado por Channing Tatum), um ladrão que ficou conhecido como o “ladrão do telhado” (Roofman, que dá o título original ao filme) após roubar mais de 40 estabelecimentos (na sua maioria McDonald’s) seguindo o mesmo modus operandi; invadindo-os pelo telhado e rendendo funcionários dentro do freezer das cozinhas. Após ser finalmente preso e protagonizar uma fuga inusitada da prisão, Jeffrey passa a viver escondido dentro de uma loja de brinquedos. O isolamento crescente o faz sair de seu esconderijo e começar a frenquentar uma igreja local. Lá, ele se envolve romanticamente com Leigh (Kirsten Dunst), que trabalha na mesma loja onde ele vive escondido, iniciando um relacionamento improvável e arriscado, enquanto precisa lidar com a ameaça constante de seu passado criminoso vir à tona.
A descrição acima pode levar o leitor a pensar que estamos diante de um drama pesado ou um suspense cheio de idas e vindas, mas Cianfrance adota um tom lúdico a trama, apostando em uma leveza que ao mesmo tempo não se desvia de apontar problemas sérios da sociedade americana. A começar pelo próprio protagonista, Jeffrey é um ex-militar que não consegue arranjar trabalho depois de sair do exército, problema esse que afeta milhares de pessoas nos EUA. Com uma família para sustentar, a solução é roubar usando tudo que aprendeu no seu tempo como militar aliado a uma habilidade quase sobre-humana de observação. Mas mesmo entrando para o mundo do crime, Jeffrey não deixa de lado sua personalidade amável e carismática, sempre tratando suas “vítimas” com respeito e zelo. Ao colocar um grupo de funcionários dentro de um quarto refrigerado, Jeffrey acaba dando seu próprio casaco para que um deles não passe tanto frio trancado lá dentro.
Essa bondade é ressaltada pela atuação de Tatum, que faz de tudo para tornar Jeffrey em um personagem bem quisto pelo espectador, por mais que suas decisões sejam mais do que questionáveis. Reforçado ainda por uma narração em off que acompanha boa parte da projeção, somos sempre lembrados das boas intenções do protagonista, mesmo que isso ás vezes envolva assaltar ou colocar fogo em algum lugar.
O período em que fica preso na loja de brinquedos também serve para mostrar esse misto de crítica social com fábula urbana que Cianfrance propõe. Ao mesmo tempo que nos divertimos com Jeffrey tomando conta da loja às noites, consumindo doses cavalares de M&Ms e dançando igual Tom Cruise em Negócio Arriscado, também presenciamos a desigualdade nas relações de trabalho do lugar, com o tirânico e patético gerente Mitch (Peter Dinklage em ótima participação) frequentemente humilhando seus funcionários, entre eles Leigh, que logo vira alvo do afeto de Jeffrey.
A performance de Kirsten Dunst, vale ressaltar, é mais um trabalho multifacetado da atriz que há anos se firmou como uma das melhores de sua geração. Madura, sua personagem quer se apaixonar por Jeffrey, mas a vida já lhe ensinou que nada é o que parece. Toda a sequência de cortejo entre os dois é bem construída, mas não menos dolorosa pelo que sabemos que vai acontecer quando tudo for revelado. A simples troca de olhares em um dos momentos finais do longa demonstra a qualidade da química e da atuação dos dois.
Fugindo da obviedade de encerrar a película com as imagens dos personagens reais com seus atores, o diretor reserva uma pequena sequência de entrevistas com eles, questionando o cárater de Jeffrey após os eventos mostrados. E é curioso que enquanto as figuras de autoridade ali entrevistadas o pintam como frio, calculista e mentiroso, aqueles que conviveram com ele na época não conseguem pintá-lo como uma pessoa ruim, mesmo que tenham sido enganados por ele. O bom bandido é o bandido perdoado mesmo.



