Enquanto assistia a O Que Nos Mantém Vivos (What Keeps You Alive), não pude deixar de sentir que tudo que passava diante dos meus olhos era bastante conhecido e até meio comum, porém haviam, aqui e ali alguns adornos auxiliando a trama. Foi como comer um bom bolo de chocolate que já tinha cobertura, mas nela estavam lascas deliciosas de chocolate.
Jackie (Hannah Emily Anderson) e Jules (Brittany Allen) saem para comemorar um ano de casamento passando o fim de semana na casa de infância de Jackie, mas ao chegarem lá, Jules começa a desconfiar que sua esposa não é exatamente quem ela disse ser. A partir dessa proposta simples, toda a trama se desenrola com uma rede de acontecimentos também bem simples. Atualmente (e felizmente) a representatividade já está bem mais estabelecida no cinema, e a cada ano cresce mais, mas em 2018 (quando o filme foi lançado) isso ainda estava começando. Aqui, temos um casal LGBT como protagonista, e esse aspecto já trás alguma originalidade ao longa com o positivo acréscimo de não precisar discutir questões sociais, supondo que a audiência tranha a capacidade de encarar tudo de forma natural. Infelizmente, desconsiderando isso, não há mais muita substância aqui que sustente a obra.

Um bom filme de horror que provoca sua protagonista e leva o espectador a uma viagem macabra.
Colin Minihan, o diretor, é a lasca de chocolate na cobertura, pois sua direção e seu roteiro surgem com muita vontade e marca aqui. Ele se utiliza de recursos batidos, mas subvertendo-os para que o espectador seja ludibriado. Exemplo: flashbacks felizes das duas juntas, que a primeira vista parecem indicar um tipo de conflito, mas que estão ali como uma espécie de cortina de fumaça para que quando a verdade vier à tona, seja impactante não só no filme. Da mesma forma a câmera de Colin, que gosta de ângulos abertos e médios, as vezes mostrando detalhes, as vezes não mostrando nada, brinca com o coração do espectador. Ele brinca com perspectivas em primeira pessoa, depois “filma” uma cena intensa realizando a maravilhosa façanha de não mostrar nada e termina com um plongeé que faz impossível o ato de não teorizar. É essa a experiência que faz de O Que Nos Mantém Vivos um bom filme: você fazer parte do jogo de gato e rato, você não parar de se perguntar coisas. Fiquei realmente surpreso.
O roteiro, se utilizando destes flashbacks, ainda consegue brincar com coisas que estabeleceu neles, como quando você sai de casa e jura que trancou a porta da frente, mas quando para pra pensar se o fez, a memória mostra tanto você trancando quanto destrancando. É uma confusão e um medo que foram bem utilizados nessa obra.
Então quando as atuações entram em cena é que aparecem os defeitos do filme. Eu diria que Brittany Allen manda muito bem de Jules, indo da doçura e do amor sincero a uma descoberta terrível que a inunda de confusão, medo e pavor até terminar num poço de ódio ressentido. A atriz demonstra tudo isso só com os olhos, e realmente capta a atenção de qualquer um… Só que não dá pra dizer o mesmo de Hannah. Sinto que a atriz tenta bastante fazer um bom trabalho, e acho até que consegue fazer isso, contudo, sem querer dar spoilers, ela também pode se tornar muito canastrona e exagerada, não chegando nem um pouco perto da emoção verossímil de sua colega. Ainda assim, o todo consegue atrair o olhar o bastante para que não se sinta tanto o incômodo. Posso dizer que a performance emotiva e assustada de Brittany até mesmo impulsiona a de Hannah.
Outro defeito que acaba por ceifar a estadia do espectador aqui é o seu terceiro ato, que compromete a suspensão da descrença com escolhas no mínimo questionáveis e ações ainda mais. Se o filme acabasse quando ele parece que vai acabar, o fim teria sido muito corajoso e interessante, mas na aparente tentativa da direção de impressionar, o que recebemos é um típico final “acalorado” desses filmes. Entram então muitas conveniências para as duas protagonistas somadas a uma sensação de alongamento desnecessário.
No fim das contas, O Que Nos Mantém Vivos é um exemplar comum do terror e de seu subgênero “gato e rato”, mas que tem ali seus enfeites que o deixam com cara de diferente. É uma obra que certamente vai deixar alguns na ponta da cadeira e roendo as unhas, mesmo que sua parcela final possa comprometer essas emoções tão genuínas.



