Em Os Fabelmans de Steven Spielberg, o diretor deixa de lado os grandes efeitos para abrir o peito e mexer na própria memória. O filme até parece, de início, aquela velha declaração de amor ao cinema, mas logo se mostra algo mais pesado e sincero: uma reflexão sobre como a arte pode ser o nosso melhor esconderijo e, ao mesmo tempo, o que nos isola do mundo.
A força do filme não está no take, mas no choque entre os pais de Sammy (Gabriel Labelle). Spielberg não tenta vender uma família perfeita. Ele mostra o embate entre a lógica do pai (Paul Dano) e a essência artística da mãe (Michelle Williams), colocando o jovem Sammy exatamente no meio desse estresse emocional.

Com Hamnet, Clhoé Zhao acertou em cheio.
O grande ponto do filme vem quando Sammy entende que a câmera não é um brinquedo, mas uma lupa. Na ilha de edição, ao cortar e colar pedaços da sua realidade, ele acaba descobrindo o segredo que quebra o silêncio da sua casa. É nesse ponto que Os Fabelmans nos joga na cara uma verdade incômoda: a arte não serve só para embelezar a vida, ela serve para revelar o que a gente preferia ignorar.
A obsessão do garoto pelo cinema é mostrada como uma necessidade de sobrevivência. Quando o mundo lá fora fica insuportável, ele tenta controlar o caos através da lente. Ele enquadra a dor em 24 quadros por segundo para conseguir aguentar o fluxo da vida.
No fim das contas, Os Fabelmans mexe com a gente porque não é uma história de vitória. É o registro da perda da inocência vista de perto. Spielberg nos prova que as histórias que contamos são o que nos dá sentido, mas são também as marcas que decidimos mostrar para o mundo. Mais do que um filme sobre filmes, é um filme sobre como a arte nos molda e, às vezes, nos salva de nós mesmos.



