O emocionante documentário Ritas é um retrato importante da cantora Rita Lee, eterna rainha do rock brasileiro, que nos deixou em 2023. O filme, dirigido por Oswaldo Santana e Karen Harley, estreou nos cinemas no dia 22 de maio. O que o diferencia de outros documentários que eventualmente surgirão como opção é que Ritas é Rita contada por ela mesma. Trata-se, basicamente, de uma entrevista concedida por Lee em sua casa, revelando um pouco de sua rotina e intimidade.
Apesar do que promete a sinopse, o documentário pouco se aprofunda nas reflexões mais íntimas de Lee. Trata-se, em certa medida, de ouvir o que ela tem a dizer — e isso já é suficiente. Não há aqui um tratamento intensivo das imagens, o que, curiosamente, parece uma escolha consciente e acertada. As imagens, provavelmente pensadas originalmente para outro propósito, são cruas. Essa crueza trabalha a favor do filme: aproxima-nos da artista e permite que nos sintamos mais íntimos dela ao longo dos pouco mais de 60 minutos de duração.

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Por outro lado, a edição modesta acaba transmitindo uma sensação de produto televisivo, com um acabamento que remete a reportagens do Fantástico ou programas similares, mais do que a uma produção cinematográfica. É um problema semelhante ao visto em Milton Bituca Nascimento, embora aqui haja uma justificativa mais plausível — à qual voltarei adiante.
Ainda que seja um belo registro da intimidade de Rita Lee, o uso de certos recursos — como fotos de época animadas com filtros comuns em programas de edição amadores — acaba dando um tom genérico e até um pouco tosco ao filme. Isso, por si só, não é um grande problema. No entanto, talvez por respeito à figura retratada, o documentário não se arrisca. Falta ceder um pouco à rebeldia estética, se mantendo fiel ao formato cru e jornalístico, das gravações originais.
E isso entra em contraste com a personagem retratada: uma artista ousada, inovadora, provocadora. Contar sua história de forma tão simples e direta pode parecer um paradoxo. Ainda assim, a sobriedade permite o surgimento de duas Ritas distintas: a artista performática das imagens de arquivo e a mulher nostálgica e reclusa do passado recente, que nos guia de maneira intimista por sua história.
É importante destacar que, embora a estética possa parecer desabonadora, a abordagem é honesta e coerente. Está afinal, de acordo com a proposta existencial do filme: parecer um registro caseiro, quase um diário filmado. É quase como se estivéssemos assistindo a um vídeo de arquivo familiar.
A ideia é simples, mas eficaz: ver Rita como um espelho de si mesma e de sua trajetória. O uso de imagens de arquivo, bem alinhado com os momentos narrados por ela, revela um cuidado e um senso de pesquisa bem apurados. O excesso de sobriedade só se torna uma falha porque torna o filme menos marcante do que poderia ser.
Mesmo sem trazer grandes novidades sobre a vida da artista ou em termos de linguagem cinematográfica, Ritas é um tributo importante. O filme dá protagonismo à voz de Rita Lee — literalmente. E ainda que seja, por vezes, desnecessariamente simples, cumpre a nobre missão de matar a saudade de uma figura essencial para a música e a cultura brasileiras.
Para quem sente falta da marcante voz de Rita Lee, esta é uma das melhores opções disponíveis. Um filme de artista que privilegia o que ela tem a dizer — um alívio em meio a tantos documentários e ficções de qualidade duvidosa, que se perdem na espetacularização. Em um universo onde o exagero virou norma, passear pela simplicidade da vida de Rita na terceira idade é tão acolhedor quanto folhear, ao lado de alguém querido, um álbum de família.



