Crítica de filme

Santa Maud

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 5

Rose Glass, atualmente conhecida por ter feito o mediano Love Lies Bleeding: O Amor Sangra (Love Lies Bleeding), teve seu primeiro projeto sendo lançado em meados de 2021. Uma obra curta e barata, mas cheia de conteúdo e potencial que, felizmente, a diretora conseguiu alcançar. Santa Maud (Saint Maud) pode parecer uma espécie de filme de terror comum que trate de possessão, contudo, felizmente não é o caso: aqui existe um poderoso estudo em torno de uma personagem destroçada e que busca, desesperadamente, um motivo para ser como é. Sendo assim, mesmo que possa não haver tanta diferença entre as palavras, Santa Maud não é um filme de terror, mas um filme de horror.

Diferente da esmagadora maioria, o horror aqui não é daqueles que pega o protagonista e o envolve num mundo onde ele não diferencia o lúdico do real, porque Rose Glass sabia muito bem o que tinha nas mãos. Aqui, Maud já está envolta num mundo que para ela é real, e o que está ao redor, que são as coisas comuns, uma vida comum, é o lúdico. Para a personagem, tudo é tão estranho e distante que ela apenas não se encaixa.

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O mais interessante por parte da direção é a falta de introdução do espectador no mundo e na mente de Maud. Isso faz com que víssemos tudo como que por uma janela, desejando entender, adentrar naquilo, mas nunca podendo. Daí, então, vem o medo, pois como já dito: o que é comum para Maud não é para nós. Ações que ela toma são estranhas, coisas que fala, olhares que faz e até coisas que pensa (sugeridas de forma brilhantemente sensível).

Maud é a encarnação do negacionismo cristão ao prazer da mulher, tema que é silenciosamente debatido durante o filme. Rose não deixa em dúvida qual é a natureza das coisas que acontecem, mas de longe o que mais parece sobrenatural é como Maud sente a tentação a todo momento. Uma tentação sexual que ela busca saciar de outras formas, porém jamais consegue, tendo em vista a forma bem estranha como ela reage à “presença de Deus”. Claro que seus dramas não se resumem só a um tesão constante, já que ela sofre com culpa, solidão e necessidade de se sentir pura. Maud está envolta em correntes religiosas que construiu sobre si, e isso também é criticado, como o próprio dogma católico/evangélico acerca de perdão que, por muitas vezes, acaba anulando qualquer pensamento autocrítico. Graças a todos esses fatores, à medida que a obra corre, mais Maud se encarcera e mais o espectador fica imerso.

Morfydd Clark está um absurdo como Maud, e sua performance invade a tela. Suas expressões, suas falas baixas e sua voz que nunca parece estar tão tímida ou exaltada, tudo o que ela fez para encarnar essa personagem é uma recompensa para quem assiste. É uma pena que a atriz não seja tão cotada ou comentada, pois aqui demonstrou ter todo o talento e muito mais. É de fato uma das melhores performances que eu já vi, cheia de ingenuidade, mas também desejo com um toque de loucura. E quando a direção se une com Morfydd para entregar uma cena de tensão, é bom que todos estejam preparados, já que o trabalho em torno da iminência acaba com todos os nossos sentidos.

Quando, ao fim, a loucura desencadeada por tantas amarras impostas é solta, Santa Maud é dominado pelo horror e a consequência é maravilhosa. Existe uma cena em que ela parece estar falando com alguém, que lembra muito a sequência final de A Bruxa (The Witch). Ah, e um dos poucos jumpscares no filme é tão, mas tão bem utilizado que me fez saltar da cadeira enquanto assistia. E, mesmo que nunca haja dúvidas sobre aquilo tudo ser ou não real, ainda é assustador ver como Maud funciona e a que ponto chegou.

Creio que, assim como o já citado A Bruxa, Santa Maud retrata também uma história sobre o medo da libertação feminina, contudo, aqui existe uma efetiva autodestruição, pois até o fim… Maud fez de tudo para ser santa. Esse é, sem dúvidas, um dos melhores filmes de horror dos últimos anos, e é impressionante que seja tão curto, porque enquanto se assiste parece que você está ali há horas numa conversa angustiante, longa e profunda com a própria Maud.

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Santa Maud

Santa Maud

Saint Maud
16
País: Inglaterra
Direção: Rose Glass
Roteiro: Rose Glass
Elenco: Morfydd Clark, Jennifer Ehle, Lily Frazer
Idioma: Inglês

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