Crítica de filme

Superman (2025)

Publicado 8 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3

“O que nos torna humanos?” A pergunta mais feita na história da ficção ressurge, desta vez para investigar o lugar do Super-Homem na Terra — e se há espaço para ele na forma como os filmes são feitos hoje. 

Nós, o público, ficamos mais ‘espertinhos’ a cada segundo. Supostamente, sabemos todas as estruturas de roteiro e seus mecanismos para avaliar se um filme é bom, se os ‘arcos’ estão ‘amarrados’ ou se a personagem foi ‘desenvolvida’. Mas o que é desenvolver uma personagem? Ladainha durante duas horas? O cinema, durante a era de ouro, fundamentava-se em movimentos do corpo. Pequenas ações guardavam grandes sentimentos. Muito se exprimia nessa economia: o gesto era o morfema da sétima arte.

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Isso não cabe mais, graças ao cinismo do espectador. Um movimento corporal é pouco, mas a bomba retórica encanta. Hoje, o pastelão e o barato não possuem mais tração, pois o público se vê como merecedor de algo melhor. Uma besteira enorme. É preciso retomar certa inocência para aproveitar o cinema em sua totalidade — e o espirituoso Superman (2025) é a prova disso. Cachorro superpoderoso, herói com cabelo de tigela e kaijus fofinhos. Galhofas que fundamentam ideais sobre o que é o Super-Homem, o que significa ser uma adaptação de quadrinhos e qual a direção ‘espiritual’ do DCU.

A Gangue da Justiça, composta por apenas três gatos pingados, traz escolhas curiosas: Mr. Terrific (Edi Gathegi), Mulher-Gavião (Isabela Merced) e o Lanterna Verde Guy Gardner (Nathan Fillion). Apesar de familiaridades — como o desenho clássico da Liga e o próprio nome Lanterna Verde —, nenhum é difundido no grande público. Escolhê-los foi ousado e pertinente. 

Algo insuportável nas adaptações atuais: poderes que não importam. Em Deadpool vs Wolverine, as cartas energéticas de Gambit poderiam ser projéteis de 9mm sem alterar o filme. Gambit e Elektra lutam da mesma forma. Aqui, não. Cada personagem tem um estilo que se reflete no combate: Terrific, a mente que dissecaria Deus, é o gênio tático; Mulher-Gavião, a força bruta; Guy Gardner, o espírito criativo.

Todo esse pensamento interessante, infelizmente, fica no texto — as cenas de ação são frágeis. Gunn repete a mesma solução para problemas diferentes. Toda luta é uma lente grande angular com má coreografia ao redor. A câmera presa ao corpo voador ou posicionada em 3/4. Ação nunca foi seu forte, mas essa característica não evoluir em seu arsenal é estranho.

As superestimadas lutas de Guardiões Vol. 3, com seus planos-sequências não imaginativos, ecoam aqui. Na primeira luta, até intriga; porém ver heróis distintos contra ameaças diversas filmados igualmente prova que a criatividade de Gunn é limitada.

O visual decepciona. Boas ideias existem, mas raramente se pagam. O retrofuturismo é uma grande sacada — associá-lo ao Super-Homem poderia cristalizá-lo como herói anacrônico, cujo ethos transcende seu tempo —, mas as cores são lavadas, os planos carecem de encenação proposital (parecem ‘cumprir tabela’), e a edição moderna esquarteja o olhar: muitos cortes, segundos escassos, ideias vagas e nada para absorver. Existem alguns planos instigantes no caminho, mas que não assentam para adentrar o imaginário.

Se a Marvel precisou de anos de obras imprestáveis para criar algum traço de identidade — que, na verdade, transformou tudo numa maçaroca cinzenta indistinguível —, aqui James Gunn nos joga direto nesse mundo como se já o conhecêssemos. Algo semelhante a Batman vs Superman, no qual encontramos um Homem-Morcego nunca antes visto. Em ambos os casos, faz bem.

O ritmo do filme é abençoado graças a essa decisão. No âmbito estrutural, nada é excedente, nada falta. Há explicações no meio do caminho para contextualizar os acontecimentos, mas a sensação de pegar a roda girando cria uma familiaridade preciosa para um universo que se inicia tão tardiamente em Hollywood. O extravagante e inadequado comportamento da namorada de Luthor (Nicholas Hoult) é uma piada transformada em mecanismo narrativo, que se paga no final (marca desses roteiristas espertos, fila que Gunn lidera) e, mais que isso, opera de forma macia neste universo. Assim como toda a trama “política”, que não passa de pano de fundo para as arapucas do careca e consolidação da mítica do Super-Homem.

Luthor, um dos pontos altos do filme, é profundamente maligno, preparado e disposto a destruir qualquer obstáculo no caminho de sua sonhada destruição do Super-Homem. Sabemos disso não porque o filme diz, mas porque mostra. A luta em que derrota o Super-Homem usando uma espécie de avatar é brilhante por revelar as entranhas de Lex: alguém incapaz de enfrentá-lo frontalmente, mas que constantemente muda o tabuleiro para ganhos estratégicos. A cena em que assassina friamente um vendedor de rua denota crueldade e falta de escrúpulos, noções basilares de sua psique.

Lex se enxerga como übermensch, o ápice da existência humana, e o mero respirar de Clark é uma afronta. Mas se o combate com Super existe para rechaçar a divindade do kryptoniano, seus métodos invariavelmente reforçam a humanidade do alien: o plano de Lex é retirar todo o ar dos pulmões de Super-Homem. Não é criar o Apocalypse e deixar o monstro rasgá-lo de uma ponta a outra, mas fazê-lo parar de respirar com nanotecnologia. A solução, então, é utilizar das mais grotescas saídas do corpo humano para eliminar o que lhe é nocivo: vomitar. 

O Super-Homem de James Gunn usa a superaudição para escutar sua namorada desabafar que não vê futuro na relação, perde a calma quando o cachorro superperturbado começa a se comportar mal e gorfa quando seu corpo é invadido. Nessa interseção entre o banal e o absurdo — âmago da Era de Prata dos quadrinhos —, Superman é um oxímoro: das fissuras do cósmico escorre o mundano; no ordinário surge a virtude.

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superman poster

Superman

Superman
14
País: EUA
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: David Corenswet, Nicholas Hoult, Rachel Brosnahan, Isabela Merced, Anthony Carrigan, Edi Gathegi
Idioma: Inglês

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