Qualquer um familiarizado com o musical Wicked já poderia prever que a adaptação cinematográfica do ato 2 do musical jamais atingiria a unanimidade da recepção do filme que adaptou a primeira metade da história. E isso se deve a um fator principal: tom. Enquanto no primeiro filme acompanhamos os personagens na fase áurea de sua juventude interagindo com um mundo que ainda não teve a sua fachada desmanchada, no segundo embarcamos imediatamente dentro de uma realidade corrupta e injusta, que abre mão da leveza apresentada anteriormente para dar lugar ao peso que surge como consequência dos eventos e decisões que acontecem durante o clímax do primeiro filme.
Wicked: Parte 2 inicia sua ação com um retrato já definido. Elphaba (Cynthia Erivo), agora exilada e conhecida como a Bruxa Má do Oeste, vive sua vida escondida enquanto luta pelos direitos dos animais, que estão cada vez mais escassos. Glinda (Ariana Grande), por sua vez, conquista a admiração social que sempre almejou, sendo posicionada pelo Mágico (Jeff Goldblum) e Madame Morrible (Michelle Yeoh) como a antítese de Elphaba, se transformando em Glinda, a Bruxa Boa do Norte. Divididas pelo clima político de Oz, as duas amigas precisam lidar com as ramificações das percepções de suas respectivas posições nesse sistema enquanto tentam manter a sua relação viva.

Com Hamnet, Clhoé Zhao acertou em cheio.
Essa dinâmica complexa faz com que os números musicais da continuação não sejam tão descontraídos como os do primeiro filme, já que os personagens estão lidando com dilemas morais carregados de senso de urgência. E isso acaba dando mais espaço para a direção de Jon Chu brilhar. Menos preocupado em atribuir intensidade para coreografias ou trabalhar o senso de escala dos cenários práticos, o diretor usa as sequências musicais para estudar suas protagonistas com artifícios visuais criativos, com momentos como Thank Goodness, quando o tempo desacelera em volta de Glinda para que ela dê voz aos seus verdadeiros sentimentos, e For Good, dueto entre Elphaba e Glinda, em que as amigas cantam sobre a sua relação com a intimidade que o momento requer, sendo exemplos que refletem essa decisão. Também aprecio como a câmera do cineasta está sempre se movendo, seja por meio de planos sequências ou momentos de travelling.
Do ponto de vista técnico, o filme é ainda mais grandioso que o primeiro. Com melhoras notórias em aspectos como a fotografia e os efeitos especiais, que parecem ter tido mais tempo para serem refinados. A mesma atenção ao detalhe é mantida no trabalho de figurino e design de produção do filme, que continuam sendo elementos de deleite visual que impressionam positivamente. Mas existe um aspecto técnico que não consegue alcançar a excelência dos demais, a montagem. Com o seu resultado sendo uma consequência direta da história que está sendo adaptada no texto do capítulo final da saga.
O roteiro do segundo filme precisa lidar com a difícil tarefa de adaptar o ato 2 do musical da Broadway, um segmento de 50 minutos com problemas de estrutura perceptíveis e viradas narrativas agressivas, que carecem de construção. A adaptação consegue enriquecer vários elementos da obra original, com a relação entre Elphaba e Glinda sendo um deles. Ainda mais potente e emocionante que a amizade das bruxas no palco, a conexão das duas personagens no cinema já está imortalizada na cultura pop para sempre, com a cena da despedida delas, separadas por uma porta, sendo um dos momentos mais sensíveis e memoráveis do audiovisual em 2025. Outro grande ponto de aprimoramento é a narrativa em torno dos animais, que finalmente ganham o espaço necessário para tornar o subtexto político da história mais efetivo.
Infelizmente, um erro que a adaptação não foi capaz de consertar são os acontecimentos relacionados ao Mágico de Oz, talvez o mais importante deles. Na peça musical, eles são inseridos na narrativa de forma brusca e apressada, soando mais como conveniências de texto do que como algo propriamente estabelecido com o cuidado necessário para manter a naturalidade da interseção entre as duas histórias. Ao ser fiel a essa abordagem, o filme cria um problema de ritmo que atropela parte da narrativa e ignora personagens como Bok (Ethan Slater) e Fiyero (Jonathan Bailey) de maneira que causa estranhamento e insatisfação. Mas nem tudo relacionado à junção desse lore é negativo, com a chegada de Dorothy sendo o catalizador para alguns dos melhores momentos do filme, como o confronto entre as protagonistas em Munchkinland e o excelente número musical, No Good Deed, sequência em que a personagem de Elphaba aceita que as suas boas intenções não são o suficiente para derrotar a percepção da população em torno de sua figura.
Mas mesmo com tropeços narrativos e momentos de potencial inexplorado, acredito que os acertos do projeto se sobressaem. O maior deles são as atuações de Cynthia Erivo e Ariana Grande, que preenchem a tela de autenticidade sempre que contracenam juntas, exibindo uma química avassaladora como parceiras de cena. Cynthia Erivo continua se apropriando de Elphaba com uma vulnerabilidade palpável, mas nesse novo capítulo, ela ganha espaço para explorar a frustração da personagem de modo mais incisivo. Mas a grande atuação do longa pertence a Ariana Grande. Enquanto no primeiro filme, sua interpretação foi infundida de um tom majoritariamente cômico, dessa vez, o arco de Glinda pede que a atriz mergulhe de cabeça no drama, precisando calibrar essa emoção entre momentos em que a personagem internaliza o que está sentindo com momentos de confronto, onde esses sentimentos precisam transbordar. É um desempenho impressionante que prova a versatilidade da artista e rende momentos gloriosos, como a sequência em que Glinda, em um momento de decepção, sugere que usem Nessa, irmã de Elphaba, contra a amiga. Mas nem todas as atuações são tão brilhantes quanto as da dupla principal. Michelle Yeoh, uma das maiores atrizes da indústria, infelizmente não consegue transmitir naturalidade como Madame Morrible, muito devido ao fato de não conseguir sustentar os momentos em que a personagem precisa cantar.
Imperfeito por conta de ressalvas do material original que o roteiro não tenta contornar, mas emocionante e autêntico no modo como explora os conflitos de Elphaba e Glinda, Wicked: Parte 2 finaliza sua história escancarando as dificuldades de lutar pelo que se acredita e os sacrifícios que assumir a responsabilidade de suas ações exige. Mas, em seus minutos finais, ele também potencializa o encontro como uma fonte de mudança e a mudança como uma porta para recomeços. Talvez essa seja a grande oportunidade que espera por todos nós em um lugar além do arco-íris.



