Crítica de série

Sandman | Temporada 2 – Parte 1

Publicado 8 meses atrás

Nota do(a) autor(a): 3

Incontáveis vezes já disse a amigos que The Sandman, de Neil Gaiman, era uma obra impossível de transcrever para telas. Isso, é claro, foi antes do anúncio da série da Netflix que, surpreendentemente, já se aproxima de seu final.

A obra completa consiste de 75 edições dos quadrinhos, e mais uma porção de spin-offs e histórias secundárias; enquanto a adaptação da Netflix terá em sua totalidade 23 episódios. A curta duração sinaliza problemas em obviedade, mas também esconde transtornos maiores e mais sorrateiros.

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Um Jogo de Você

Sandman é um épico quieto e calmo, mas um épico inegável; uma história que compreende não apenas todo o universo, mas de forma ainda mais grandiosa, cada um de nós. Se todo aquele que sonha e imagina tem um espaço e participação nessa narrativa, é uma decisão um tanto quanto confusa a de ignorar algumas das histórias mais humanas de toda a obra e focar ao invés disso nos seres místicos que permeiam a criação. Muitos, incontáveis, seres místicos.

É um engano que a adaptação comete, entretanto, o de tratar esses seres (Sonho incluso) como os protagonistas da história, e não como representações metafísicas e veículos para tratar de assuntos inerentemente humanos. Sandman é, acima de tudo, uma obra humanista; e toda essa visão está perdida na adaptação da Netflix.

Existem lições aqui tiradas que são fundamentais para a construção da relação entre o leitor e a obra. Neil Gaiman nos convida a jogarmos o jogo de nós mesmos, a confrontar nossa própria identidade, a fazer paz com nossas escolhas (e suas consequências); Sandman nos pede para banirmos o domínio que nossos Desejos possuem sobre nós, e para tomarmos controle sobre nosso próprio Destino.

Todas essas ideias (tão doloridas quanto esperançosas) estão presentes na série, porém apenas repetidas de forma vazia, sem qualquer impacto emocional. Com toda a profundidade removida, o que resta? Uma série qualquer de Alta Fantasia. Uma boa série de Alta Fantasia, ao menos.

Vidas Breves

Falemos então sobre tal Fantasia. A primeira temporada tinha em si a majestade e encanto do Sonhar, mas se passava majoritariamente no mundo desperto; já a segunda temporada (sua primeira parte ao menos) é totalmente edificada no universo do lúdico e conta com demônios, entidades, e deuses dos mais diversos tipos. Um novo pico de fantasia é atingido, e nele o ar também fica rarefeito.

Do ponto de vista visual e sonoro, o pacote é misto. A trilha de David Buckley continua sendo uma das maiores forças da série, e a ambição estética está mais presente do que nunca, mas efeitos pontuais — como o grotesco visual de Azazel — servem como lembrete de que a ambição tem suas armadilhas.

A introdução de Destruição (Barry Sloane), o “pródigo” dos irmãos, traz um sopro bem-vindo de humanidade e leveza para a família. Tom Sturridge mantém sua interpretação contida de Morpheus, mas com lampejos de emoção mais intensos que no material original, sinalizando o arco de redenção e autoconsciência que está no centro dessa temporada. O foco na personagem é mais concentrado: os roteiros deixam de lado boa parte das histórias paralelas dos quadrinhos e reordenam eventos para construir uma trajetória mais seca do Rei dos Sonhos.

O resultado é um excesso negativo de coesão, que ao abandonar tangentes, mata Thessaly completamente, desperta sem sonhar com Wanda (Indya Moore) e apaga toda a ilusão de Barbie (Lily Travers) e sua Terra. Todas elas mulheres que perdem a oportunidade de serem humanas – mesmo quando não o são de fato.

O momento de destaque é a morte de Orfeu (Ruairi O’Connor); essa é a ação definidora de toda a história que Sandman mira em contar. É o que foi planejado por Desejo (Mason Alexander Park) no envolvimento de Rose (Kyo Ra), é o que Delírio (Esme Creed-Miles) e Destruição permitiram sem conhecimento, e é o catalisador através do qual Lyta (Razane Jammal) e as Irmãs do Destino fecharão a história de Morfeus.  Fico feliz que esse momento tenha tido o destaque merecido e que o Senhor dos Sonhar tenha em si a percepção do que tudo isso significa (mesmo que parte da audiência ainda não).

A temporada é pesada, em todos os sentidos. A iluminação escura, o tom cerimonioso e a cadência dramática das falas criam um clima quase funerário. Muitos diálogos soam mais como recitações do que conversas, e o resultado é um tipo de beleza engessada: sofisticada, mas sem vida.

O texto aqui não necessariamente trai a obra original, mas a engole com suas decisões artísticas. E isso é tão ruim quanto. Talvez Sandman devesse ter permanecido inadaptável.

Coisas precisam Ser mais do que elas São

Essa é uma tangente que preciso fazer. Eu amo Delírio, mais do que qualquer pessoa lendo isso poderia entender. Eu amo seu humor, amo sua leveza, e acima de tudo amo seu brilho sombrio.

Cada momento passado com Delírio é mágico e aterrorizante. Há uma dor profundamente bela – talvez algo compreendido apenas por quem já sentiu –  na percepção de que toda a realidade é governada pelas suas próprias ilusões e compreensões errôneas. É algo que já me machucou, mas hoje também me causa alegria.

Não há sobriedade alguma que me faria renunciar aos preciosos momentos em que Delírio se faz presente em minha vida. E para aqueles que sofrem com sua presença (seja por overdose ou pela não compreensão social), eu os amo também.

Acredito sim em separar ilusões da realidade de forma impiedosa. Mas ao me despedir de Delírio, não a fecho de minha vida, ao contrário, estou sempre ansioso pelo nosso próximo encontro. E se Delírio já foi Deleite, então talvez a Loucura seja apenas uma memória apagada da Felicidade.

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Sandman

Sandman

The Sandman

18

País: Estados Unidos

Criador(a): Neil Gaiman, David S. Goyer, Allan Heinberg

Elenco: Tom Sturridge, Vivienne Acheampong, Patton Oswalt

Idioma: Inglês

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