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	<title>Arquivo de Abril Video | O Cinema É</title>
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	<description>Crítica, notícias e trailers sobre filmes e seriados</description>
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		<title>Em Luta Pelo Amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Flávia Leão]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Apr 2020 19:22:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1998, Marshall Herskovitz recorreu à filosofia para produzir 'Em Luta Pelo Amor', e ainda hoje, mais de 20 anos depois, ele ainda é atual.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">Alguns filmes possuem cenas memoráveis, um momento inesquecível e forte o bastante para permanecer em nossas mentes por muito tempo &#8211; quem sabe para sempre. Seja um olhar, uma expressão, um gesto ou um texto, aquele instante marca nosso interior como ferro em brasa na pele. É o <i>‘Hasta la vista, baby</i>’ de <i>O Exterminador do Futuro;</i> o beijo de cabeça para baixo de Tobey Maguire e Kirsten Dunst em <i>Homem-Aranha</i><i>; </i>é Jennifer Beals virando um balde cheio de água em si mesma em <i>Flashdance</i>; e é o julgamento de Catherine McCormack no belíssimo <i>Em Luta Pelo Amor</i>, do diretor Marshall Herskovitz.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">É uma pena, para não dizer um verdadeiro sacrilégio, que esse longa de 1998, seja tão pouco conhecido do grande público, embora seja um tesouro do Cinema. O título em português, <i>Em Luta Pelo Amor</i>, não lhe faz justiça e soa um tanto pobre quando analisamos a trama que lhe segue. O original, em inglês, é muito mais substancial &#8211; <i>Dangerous </i><i>Beauty</i>, que em tradução literal significa <i>beleza perigosa </i>(pelo que peço licença para usá-lo a partir de agora). O caráter inegavelmente hedonista da obra de Herskovitz começa daí, mas é a partir do discurso poético de Verônica (McCormack) &#8211; personagem protagonista do filme -, em seu julgamento inquisitório, que começarei minha análise.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">“Eu confesso”, diz ela, “que quando jovem, amei um homem que não se casou comigo por falta de um dote.”<span class="Apple-converted-space">&nbsp; </span>E então já sabemos, pela palavra “dote&#8221;, que a história se passa em tempos antigos, mais precisamente na Veneza do século XVI. E ao descobrir que Verônica Franco existiu de verdade, <i>Dangerous Beauty </i>se torna também um romance histórico que narra uma parte da era das cortesãs venezianas, uma época dourada em que o prazer realmente parecia ser o caminho para a felicidade, o bem supremo da humanidade, como acreditava uma parte dos grandes filósofos gregos, como Aristipo de Cirene.</span><span style="color: initial; font-size: revert;">E assim, todo o filme foi feito &#8211; para ilustrar esses tempos áureos. A Veneza de Herskovitz brilha não só com o sol refletido em suas ruas feitas de água, mas também com o vermelho intenso da paixão, usado sem parcimônia pelo diretor inclusive no filtro da câmera; com o rosa, representando o amor, mais cálido, mas não menos importante; e com dourado da riqueza das grandes famílias e das desejadas cortesãs.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">“Eu confesso que tive uma mãe que me ensinou um modo de vida diferente, ao qual resisti no começo, mas que aprendi a abraçar.” A mãe de Verônica, apesar do pouco tempo em tela, é interpretada brilhantemente por Jacqueline Bisset, que chocou a filha ao se revelar uma ex-cortesã e que lhe ensinou o ofício com todo o zelo e dedicação que só o uma mãe pode dedicar pelo bem de uma filha. Ao tornar Verônica uma profissional da paixão (falar sexo aqui seria um eufemismo), Paola (Bisset) não só estava oferecendo a ela um modo de ganhar dinheiro para sobreviver, mas também a liberdade que poucas mulheres tinham àquela época, liberdade que não só as livravam dos grilhões de um casamento por conveniência, mas que também lhes oferecia a dádiva do conhecimento, o que as tornavam as mulheres mais cultas da Itália. Interessante notar que o que os amantes de Verônica lhe confessavam ao pé do ouvido, nem mesmo um padre tomava conhecimento.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">“Eu confesso que me tornei uma cortesã, negociando o desejo por poder, acolhendo vários em vez de ser propriedade de um só. Eu confesso que preferi a liberdade de uma prostituta à obediência de uma esposa.” Tudo na expressão corporal de Catherine McCormack traduz essa fala &#8211; sua postura, sua elegância sem um pingo de vulgaridade, seus olhares e risos lascivos, sua ousadia divertida, o modo como ela declama poesia. Ao longo do filme, a montagem e a decupagem de Herskovitz vão mostrando a evolução gradual do poder dessa mulher e também da inveja que ela causava nas pobres esposas submissas.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="s1">“Eu confesso que encontro mais êxtase na paixão do que na oração.&nbsp;Tal paixão é oração.&nbsp;Eu confesso que ainda rezo para sentir o toque dos lábios do meu amante.&nbsp;Suas mãos sobre mim, seus braços me envolvendo… Essa rendição tem sido minha. Eu confesso que rezo para ser preenchida e inflamada. Para derreter no sonho de nós dois, para além desse lugar problemático, onde não somos ninguém além de nós mesmos. Para saber que isso é meu para sempre.” E desse modo, Verônica choca os religiosos da Inquisição que a julgavam. As expressões boquiabertas desses homens quando ela profere essas palavras traduzem um dos pontos altos de <i>Dangerous Beauty</i>. Tal analogia com a religião faz questionar qual é o limite das nossas amarras morais e da tolerância.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">E ela continua. “Se não tivesse sido dessa maneira, se eu tivesse vivido de outra maneira &#8211; uma submissa da vontade do marido -, minha alma endureceria por falta de contato e amor. Eu confesso que esses dias e noites seriam punição muito maior do que qualquer outra a que vocês poderiam me submeter”. Aqui, Herskovitz se vale mais uma vez daquele preceito filosófico de Aristipo de Cirene, fundado na percepção de que o prazer é o fim de tudo, o motivo pelo qual vale a pena viver e morrer.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="s1">Caminhamos então para o final desse discurso icônico, o qual traduz toda a ideia da película. “Vocês, todos vocês que anseiam pelo que eu dou não podem suportar ver esse tipo de poder em uma mulher. Vocês chamam o maior presente de Deus &#8211; nós mesmos, nosso anseio, nossa necessidade de amar -, vocês chamam isso de sujeira, pecado e heresia &#8230; Eu me arrependo de que não havia outro caminho aberto para mim. Eu não me arrependo da minha vida.” </span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">E assim, Herskovitz denuncia a heresia, a hipocrisia de uma época que gera ecos até hoje, mas de uma forma tão magnânima que dá vontade de chorar. O diretor usa arte dentro da arte (Poesia dentro do Cinema) sem medo de errar. Seus cenários<span class="Apple-converted-space">&nbsp; </span>e figurinos românticos &#8211; dá até para perceber o painel ao fundo da imagem &#8211; remetem ao Teatro, uma das maiores expressões dos anseios humanos da época em que se passa história e, não obstante, mas maravilhosamente, <i>Dangerous Beauty </i>chega a ser lúdico em certos pontos.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">A lição que fica é a de quem somos nós para julgar qualquer um num mundo cheio de vícios onde tudo o que podemos fazer é tentar encontrar a mediana que nos livraria deles, como diria Aristoteles. Lembra o clássico <i>Moulin Rouge &#8211; Amor em Vermelho</i> e o notável romance gótico, <i>O Fantasma da Ópera</i>. Lembra a canção <em>Geni e o Zepelim</em><em>,</em> de Chico Buarque. É possível encontrar a</span><span class="s1"> beleza onde só existe preconceitos.</span></p>



<p class="p1 wp-block-paragraph"><span class="s1">Em <i>Dangerous Beauty </i>essa beleza está representada nos olhos de Catherine McCormack e no hedonismo de sua personagem, mas hoje, mais de 20 anos depois do lançamento do filme, sua lições são mais necessárias do que nunca. Só assim atingiremos a tão almejada liberdade de que todos tanto falam.</span></p>
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