Euphoria
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O Ego de Sam Levinson e a Ruína de Euphoria

Publicado 4 minutos atrás

Quando Euphoria chegou até nós, chocou e nos encantou não apenas pela sua estética e pela fotografia em 35mm, mas pela profundidade com que retratava os traumas da puberdade. A série havia se consolidado como um verdadeiro fenômeno cultural, equilibrando a crueza de suas histórias com um apuro técnico impecável. No entanto, em sua temporada final — agora ambientada no cenário do Texas —, o sentimento que fica é o de um imenso potencial desperdiçado por escolhas criativas desastrosas.

Para além dos furos de roteiro, o declínio da produção aponta para uma figura central: Sam Levinson. Ao centralizar todo o controle criativo, o diretor sacrificou a coerência da obra em nome de uma vaidade desmedida.

Mas afinal, quem é o homem por trás dos bastidores — e por que suas obsessões estragaram o que estava ótimo?

1. Um criador centralizador e sem limites

A ruína da temporada final começa pela insistência de Levinson em ditar os rumos de absolutamente tudo sozinho. Em vez de contar com uma sala de roteiristas para debater arcos, contestar furos ou trazer novas perspectivas, o diretor transformou a série num reflexo exclusivo de sua própria visão — uma abordagem pobre narrativamente e sufocante.

Sob o comando absoluto de Levinson, a narrativa perdeu o equilíbrio. A negligência que ele teve com o roteiro é impressionante: subtramas inteiras construídas nos anos anteriores foram simplesmente ignoradas ou resolvidas com explicações rasas demais.

Quando a produção se recusa a fechar os arcos de maneira coerente com o próprio passado, o sentimento que fica para quem assiste é o de tempo jogado no lixo. Onde antes havia uma crítica contundente à puberdade, agora há apenas a vaidade de um diretor que prioriza a sexualização exorbitante em detrimento de uma história sólida.

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2. A descaracterização do elenco principal

O reflexo mais doloroso desse controle foi o desapego dos personagens pelos quais o público era apaixonado. Figuras que vivenciaram longos caminhos de amadurecimento e sofrimento simplesmente sofreram um reboot forçado nas mãos do criador. Em vez de evoluírem a partir de suas escolhas, vêm à tona atitudes completamente incoerentes.

Cassie (Sydney Sweeney): Virou uma personagem sem autoridade própria, mimada, e se tornou um mero objeto para os homens na série.

Nate (Jacob Elordi): Que era o valentão na escola, agora se mostrou um frouxo, embora tenha tido uma morte impactante.

Maddy (Alexa Demie): Ficou completamente imponente e monótona, perdendo a força que a consagrou.

A impressão que tenho é de que Levinson esqueceu quem eram seus personagens, desfazendo-se de laços e construções narrativas que levaram duas temporadas para ser desenvolvidas, jogadas simplesmente no lixo. Ele simplesmente apagou a Jules, que teve pouquíssimo tempo de cena. Além disso, a Lexi simplesmente não falou mais do Fezco, o que se configurou como um baita furo de roteiro, pois na segunda temporada os dois haviam criado um vínculo forte — ainda que a série acerte ao homenagear Angus Cloud, que morreu precocemente ano passado. Para completar os erros de escalação, a Rosalia nessa temporada foi simplesmente uma adição no elenco que não rendeu absolutamente nada.

3. Fé, arrependimento e a única âncora da série

Por outro lado, em meio ao caos generalizado em que o restante da produção se transformou, o arco da Rue (Zendaya) foi digno. Ao acompanhar a trama, vemos uma Rue mais propensa a ter uma redenção e um suposto arrependimento pelos seus pecados; vemos isso através da fé que ela revela em trechos em que está lendo e rezando aos prantos na igreja católica.

Para mim, essa foi a mensagem que ficou com esse final: Euphoria, no fundo, é sobre fé e arrependimentos. Ela morreu, mas teve a paz que merecia. A relação dela com o Ali (Colman Domingo), funcionando como pai e filha, foi muito bonita e se consolidou como um dos pontos de que mais gostei nessa temporada.

Essa jornada espiritual da protagonista acaba sendo a única âncora humana que restou no desfecho. Diante disso, fica o questionamento incômodo: por que o restante do roteiro não recebeu o mesmo cuidado e sensibilidade que a história de Rue?

4. O fracasso do cinema épico

A perda da identidade de Euphoria foi consolidada na ruína técnica de seus pilares mais famosos. A direção de fotografia ainda é um dos poucos aspectos que se salvam, mas o resto… A ausência do Labrinth na trilha sonora prejudicou demais a trama. Hans Zimmer está na trilha sonora agora, mas de forma totalmente irreconhecível; ele tentou fazer de Euphoria um cinema épico, falhando demais em fazer isso e quebrando totalmente a atmosfera melancólica e intimista que a série ostentava.

A terceira temporada é o reflexo de um sucesso que ruiu sob a vaidade de seu criador. No fim das contas, Euphoria diz mais sobre Sam Levinson do que sobre a sua narrativa em si.

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Euphoria poster

Euphoria

Euphoria
A18
País: Estados Unidos
Criação: Sam Levinson
Elenco: Zendaya, Sydney Sweeney, Jacob Elordi, Hunter Schafer
Idioma: Inglês

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