A Última Tentação de Cristo
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A Última Tentação de Cristo – Corpo, Cinema e História

Publicado 14 minutos atrás

Existe um consenso entre a maior parte dos críticos que se debruçaram sobre a tarefa de escrever acerca de A Última Tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese. Essa concordância reside na impossibilidade de falar sobre o filme sem abordar as polêmicas que o envolvem. De fato, nem este texto pretende evitar completamente os acalorados debates que cercaram a obra desde sua produção até seu lançamento. Porém, nós, aqui d’O Cinema É, também queremos incluir uma perspectiva histórica em algumas de suas camadas.

Primeiro, todo filme que busca retratar o passado inevitavelmente fala muito mais sobre a época em que foi
realizado do que sobre o período que pretende representar na tela. Nesse aspecto, é impossível fugir de uma
contextualização da obra, e é justamente aí que se encontram algumas de suas escolhas mais interessantes. Em
segundo lugar, trata-se de um filme ambientado em uma época muito distante; logo, grande parte de nossas
referências visuais provém de uma iconografia produzida posteriormente. Um exercício interessante, portanto, é
comparar os elementos presentes na obra tanto com aquilo que podemos presumir a partir dos registros históricos quanto com outras adaptações já realizadas.

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O Realismo e a Teologia

No longa de 1988, sob direção de Martin Scorsese e roteiro escrito por Paul Schrader — inspirado no romance de Nikos Kazantzakis —, a produção permanece como uma das obras mais corajosas da história do cinema por um único motivo: Scorsese ousa despir a figura bíblica de sua solenidade tradicional para filmá-la na chave do
realismo e da poeira. A obra não reescreve a história; usa a ficção para tatear os limites da teologia através do
cinema. Desde o começo, o diretor deixa claro que a narrativa não seguirá os evangelhos originais.

A Produção

Dito isso, comecemos do começo: A Última Tentação de Cristo é baseado em A Última Tentação, romance de
Níkos Kazantzákis. O livro, lançado ainda na década de 1950, é cercado de polêmicas devido às suas escolhas
narrativas – também presentes no filme, como retratar Jesus Cristo atormentado pelo dilema de ser Deus e, ao
mesmo tempo, homem. Outra decisão controversa é sugerir, em diversos momentos, que o Novo Testamento não constitui uma verdade absoluta dentro do universo da obra. Essas posições levaram a Igreja Ortodoxa a iniciar um processo de excomunhão contra Kazantzákis e, segundo alguns, também lhe custaram o Prêmio Nobel de Literatura, perdido para Albert Camus sete anos depois por apenas um voto.

No final dos anos 1960, Sidney Lumet chegou a ser cogitado para dirigir uma adaptação cinematográfica do
livro. Paralelamente, Scorsese, então um cineasta iniciante, leu a obra e ficou profundamente impactado por ela. A versão de Lumet nunca saiu do papel, enquanto Scorsese continuava planejando sua própria adaptação. Em 1981, Paul Schrader, colaborador habitual do diretor, escreveu o roteiro. Em 1983, a produção recebeu sinal verde da Paramount, mas o projeto acabou sendo gradualmente escanteado à medida que notícias sobre ele surgiam e grupos religiosos se mobilizavam para impedir sua realização. Após reduzir o orçamento pela metade, a Universal decidiu assumir a empreitada.

As filmagens começaram efetivamente no Marrocos, em 1987, no que Scorsese descreveu como um “estado de
emergência”. A expressão é mais do que adequada, já que, além do ritmo acelerado e do baixo custo da produção, o filme foi realizado durante ondas de protestos e prisões no período conhecido como os “Anos de Chumbo”. E, claro, após o lançamento, a obra gerou controvérsias suficientes para ser proibida em alguns países.

Elementos Históricos em A Última Tentação de Cristo

O ponto mais interessante dessa adaptação não está apenas nas liberdades tomadas em relação ao texto original
no que diz respeito à vida de Jesus (Willem Dafoe) e de seus seguidores, mas principalmente na representação da Palestina do século I. Na verdade, a relação entre os personagens e o universo em que estão inseridos está
profundamente entrelaçada. A decisão de Scorsese talvez tenha relação, como dito anteriormente, com todo esse contexto caótico. A opção foi pela simplicidade, muito inspirada no também controverso O Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini.

O Cenário como Espaço Psicológico

Historicamente, a obra acerta ao modificar a iconografia clichê de Hollywood. Filmado no Marrocos, o cenário
evoca a urgência e a situação precária da Judeia sob ocupação do Império Romano. Na estética de Scorsese, o
deserto não é apenas um plano de fundo, mas sim um espaço psicológico complexo, povoado por seitas e rebeldes zelotes. Ao focar na realidade daquela sociedade — a intensidade dos rituais no templo, as roupas manchadas e a tensão social —, ele reconecta a narrativa bíblica à sua essência palestina e antiga, onde o messianismo era uma resposta direta às dificuldades cotidianas.

Não há grandiloquência nem na representação das pessoas, muito menos nos cenários. Em determinado
momento das filmagens, o diretor obrigou seus soldados romanos a se sujarem mais, pois considerava seus
uniformes excessivamente limpos. Essa representação cria um clima compatível com a proposta de enfatizar a
humanidade de Jesus. Embora siga um caminho oposto ao das representações grandiosas, ela também parece
dialogar com uma tendência recorrente: a busca por uma suposta fidelidade histórica. Essa característica pode ser observada, por exemplo, em Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zeffirelli, lançado cerca de dez anos antes. A
escolha funciona, especialmente em A Última Tentação de Cristo, ainda que por vezes recaia no clichê de que a
Antiguidade era necessariamente suja. Trata-se de uma percepção muito mais ligada ao imaginário contemporâneo do que à realidade histórica, mesmo em uma região desértica e relativamente pobre como a Palestina do primeiro século da Era Comum.

A ocupação romana recebe destaque especial na obra. Judas (Harvey Keitel) é retratado como um zelote que
inicialmente condena Jesus por fabricar cruzes para os romanos e, posteriormente, passa a segui-lo na esperança de que ele lidere uma transformação política. Trata-se de uma escolha narrativa interessante, pois enfatiza uma
dimensão histórica frequentemente lembrada pelos estudiosos: a Palestina do século I era marcada por tensões entre a população judaica e o domínio romano. Embora haja debate sobre o grau de organização dos zelotes durante a vida de Jesus, movimentos de resistência e expectativas messiânicas faziam parte daquilo contextualmente.Décadas mais tarde, essas tensões culminariam na Grande Revolta Judaica (66-73 d.C.) e na destruição de Jerusalém pelos romanos, em 70 d.C., acontecimentos que transformaram profundamente a história do judaísmo.

Os zelotes também ocupam um papel importante em diversas adaptações da vida de Cristo, inclusive em obras
satíricas como A Vida de Brian (1979). Funcionam como um contraponto narrativo eficaz à visão de Jesus sobre o
Reino dos Céus. Embora haja debate historiográfico sobre o grau de organização desse movimento durante sua
vida, a ocupação romana da Judeia alimentava expectativas de libertação política e religiosa, favorecendo o
surgimento de diferentes correntes que defendiam projetos distintos de emancipação. Essa questão aparece
explicitamente no filme, especialmente nos diálogos entre Judas e Jesus, que apresentam concepções bastante
diferentes sobre o significado da liberdade. Mais uma vez, temas como insatisfação política, empobrecimento da
população e fanatismo religioso aparecem como elementos centrais da narrativa. Embora remetam ao contexto do século I, são apresentados de uma forma que dialoga diretamente com as inquietações da década de 1980,
parecendo, em muitos momentos, mais contemporâneos do que se esperaria de uma história ambientada por volta do ano 33.

A Humanização Scorsesiana

Cinematograficamente falando, a genialidade do longa está na profunda humanização de seu protagonista. O Jesus de Willem Dafoe é uma figura scorsesiana: um homem em constante conflito pela dualidade entre os desejos comuns do homem e o fardo de uma missão divina. Paul Schrader, no roteiro, e Scorsese, na direção, abandonam planos estáticos e a iluminação já presenciada em filmes do gênero. Em vez disso, usam uma câmera inquieta, muitas vezes filmada na mão, planos fechados expressionistas e uma montagem que traduz esse dilema.

Ambientação em A Última Tentação de Cristo

Essa sensação de “confusão” também é reforçada pela trilha sonora. A opção pela chamada world music se
justifica tanto pela maneira como imaginamos esse passado distante quanto pelo contexto cultural da época em que o filme foi produzido. Atualmente, o conceito de “música global” perdeu parte de sua relevância, mas, na década de 1980, diversos artistas experimentavam a fusão de tradições musicais de diferentes partes do mundo. É possível observar essa tendência em compositores como Philip Glass, em bandas como King Crimson e também na obra de Peter Gabriel, responsável pela trilha sonora de A Última Tentação de Cristo.

A Trilha Transcendental

Essa atmosfera ganha dimensão transcendental através da trilha de Peter Gabriel. Ao misturar ritmos tradicionais
da região com texturas acústicas modernas, a música funciona como uma espécie de ponte temporal, fazendo com que o drama do Século I soe urgente e, ao mesmo tempo, contemporâneo.

Ao mesmo tempo em que a trilha traduz o caos cotidiano retratado pelo filme, ela preserva uma certa sensação
de antiguidade por meio do uso de instrumentos e influências musicais associadas a tradições etíopes, egípcias,
turcas e indianas. O resultado desemboca em uma atmosfera que parece simultaneamente antiga e contemporânea. A diversidade étnica também se reflete no elenco de apoio. Embora os personagens principais ainda sigam a tradição das representações de um Oriente Médio fortemente europeizado (Judas, por exemplo, é ruivo), o filme consegue transmitir, de maneira relativamente inédita para sua época, a diversidade de povos presentes no Império Romano. Afinal, tratava-se de um espaço marcado pela intensa circulação de pessoas, mercadorias e culturas. Um exemplo disso aparece quando Jesus visita Maria Madalena (Barbara Hershey). Entre as pessoas que aguardam “atendimento”, vemos indivíduos com diferentes traços físicos, vestimentas e origens aparentes: pessoas negras, árabes, pardas e personagens usando turbantes, entre outros. Trata-se de uma escolha que hoje pode parecer natural, mas que ainda era pouco comum em produções do gênero, mesmo sendo historicamente plausível.

O Evangelho de Judas

Scorsese, para construir a relação entre Jesus e Judas, se aproveita da descoberta do Evangelho de Judas. O
Texto apócrifo, descoberto em 1970, diz que Judas não necessariamente traiu Jesus, uma vez que ele é uma parte
integrante para a consumação do destino do mesmo. Apesar de ser um documento conhecido desde o século II, o filme explora muito a relação entre mestre e discípulo, inclusive na tal “última tentação”.

A Conclusão e a Redenção do Sagrado

O grande acerto de A Última Tentação de Cristo é compreender que o cinema é a arte da imagem e também do
movimento, elementos intrinsecamente ligados à matéria. Ao focar no sofrimento psicológico e humano de Jesus
Cristo — culminando na sequência da ilusão na cruz —, é importante mencionar que, ao fim, Scorsese segue o
dogma cristão, e Jesus morre na cruz. Com isso, ele não diminui o sagrado; pelo contrário, ele exalta a dimensão
do sacrifício ao lembrar o público de que, para a teologia cristã fazer sentido, o Deus que se fez homem
necessitava, antes de tudo, ser capaz de duvidar e chorar.

Autores

  • Crítico de Cinema | O Cinema É

  • Mestre em história pela UFOP. Apaixonado por cinema desde que se entende por gente. Após terminar sua pesquisa sobre o cinema brasileiro da década de 1980, decidiu se aventurar deixando registradas suas impressões sobre as mais diversas obras cinematográficas.

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A Última Tentação de Cristo poster

A Última Tentação de Cristo

The Last Temptation of Christ
A14
País: Estados Unidos
Criação: Martin Scorsese
Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey
Idioma: Inglês

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