Crítica de filme

Devoradores de Estrelas

Publicado 12 minutos atrás
Nota do(a) autor(a): 5

O longa Devoradores de Estrelas, sob a direção da dinâmica dupla Phil Lord e Christopher Miller de Homem Aranha no Aranhaverso, e adaptado com precisão pelo roteirista Drew Goddard a partir da obra de Andy Weir, apresenta uma trama que gira em torno de um cenário desolador onde o mundo se encontra à beira de uma extinção iminente pela aparente morte do Sol. Duas mentes de mundos opostos se colidem ao se tornarem a última esperança da história da humanidade. Ryland Grace (Ryan Gosling) é um professor de ciências do ensino fundamental que acorda sem memória em uma nave espacial a anos-luz da Terra, descobrindo ser o único sobrevivente de uma missão suicida para coletar amostras do organismo que está consumindo nossa estrela. Caçado pela urgência do tempo e pelo peso do isolamento cósmico, ele tenta juntar os cacos do seu passado para entender sua missão.

Ao mesmo tempo, em uma órbita distante no sistema Tau Ceti, a rotina de descobertas de Ryland vira do avesso após um contato peculiar com uma espaçonave alienígena. Esse momento revela a existência de Rocky, um ser engenheiro de estrutura mineral nativo de 40 Eridani que não possui visão, mas se comunica através de acordes musicais e frequências sonoras. Durante tentativas desesperadas de comunicação a bordo da nave, Ryland e Rocky cruzam a barreira linguística, vocalizando uma sintaxe complexa que envolve cálculos de física e harmonia acústica. A conexão entre os dois se consolida na hora, colocando o futuro de duas civilizações nos ombros dessa aliança improvável.

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Confrontados pela iminência da morte e pelas falhas técnicas de suas embarcações, Grace e Rocky se unem para decifrar a biologia dos seres astrófagos. Juntos, eles descobrem que suas respectivas trajetórias até ali exigiram sacrifícios pessoais dolorosos e que a sobrevivência no universo exige colaboração e interdependência. Para salvar seus planetas e quebrar a barreira da solidão cósmica, os dois aliados planejam uma manobra arriscada de engenharia e astrofísica. Esse evento mudará para sempre o destino da Terra e de Erid.

A obra se mostra tão familiar, mas ao mesmo tempo tão original, muito do talento de seus diretores Phil Lord e Christopher Miller, que têm um dom para criar histórias profundamente humanas com ritmo ágil e transformá-las em grande cinema. Percebi algumas semelhanças deste filme com o recente Perdido em Marte (2015) e o clássico O Gigante de Ferro (1999). Lord e Miller resgatam bastante coisa desses trabalhos, mas isso não é um problema, porque eles têm o dom de transformar a ciência dura em puro sentimento e carisma. Vemos a leveza e o intrigante na obra, muitas vezes representada por Ryan Gosling, que traz uma performance impecável, intercalando muito bem momentos cômicos de puro desespero com o drama de um homem lidando com o luto e a responsabilidade. Com toda certeza, esse foi um dos melhores trabalhos de sua carreira. A expressividade física e a construção do alienígena Rocky entregam um personagem de tantas camadas, que cativa o público com sua empatia e inventividade ao contracenar com Gosling. A presença marcante de Sandra Hüller (como a implacável Eva Stratt nos flashbacks) interpreta uma mulher cega pelo dever e pela urgência global, protagonizando inclusive uma cena memorável de karaokê cantando “Sign of the Times”, de Harry Styles, que sintetiza de forma brilhante o adeus ao mundo como conhecemos e o peso das escolhas difíceis. O elenco de apoio surpreende ao crescer organicamente em cena.

A fotografia e a montagem da obra fazem toda a diferença. Muitas vezes filmado em planos fechados no interior claustrofóbico da nave e intercalando com a imensidão do espaço sideral, o longa traz uma imersão profunda ao espectador. E a montagem é absurda… as cenas de manobras orbitais e resolução de problemas práticos são espetaculares. A câmera deixa o confinamento dos corredores e migra para o plano aberto do espaço e, quando ela migra para esse plano.

Mas a trilha sonora composta por Daniel Pemberton, combinada com o uso diegético de canções populares como a própria “Sign of the Times”, faz total diferença. É impressionante o que a parceria entre os diretores e Pemberton reflete, e o resultado é ritmo e emoção pura. A canção de Styles ganha contornos poéticos ao falar de “romper a atmosfera” e serve como uma metáfora quase maternal de Stratt empurrando Grace para encarar o perigo. Sem essa construção musical que dialoga diretamente com a voz do próprio Rocky, a fotografia e a montagem perderiam muito do seu impacto, apesar de ser uma trilha muito mais sutil do que o comum, feita para ficar “por baixo” da resolução dos problemas, dando pequenos empurrões emocionais em vez de guiar as cenas.

Por fim, Devoradores de Estrelas acerta em cheio no drama, na ciência e no subestimado humor. Através de Gosling e da amizade com Rocky, Phil Lord e Christopher Miller reafirmam sua crença mais profunda: diante do desconhecido e da crise, a única saída da humanidade é o resgate da empatia e do trabalho em equipe, transformando o impacto em um recomeço.

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Devoradores de Estrelas Pôster

Devoradores de Estrelas

Project Hail Mary
A14
País: Estados Unidos e Reino Unido
Direção: Phil Lord e Christopher Miller
Roteiro: Drew Goddard
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce, Milana Vayntrub
Idioma: Inglês

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