Acho que todo fã de cinema tem um gosto especial por um filme de qualidade duvidosa, ou pelo menos uma obra que divide opiniões no senso comum e nunca é lembrada como uma coisa grandiosa. Posso dizer que Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, toma esse lugar em minha concepção, e, por mais que quisesse elaborar diversos argumentos profundos, o motivo é bastante simples e fácil de explicar.
Confesso que o longa tem seus problemas que dificultam sua defesa, principalmente quando falamos do roteiro. A trama em volta dos personagens principais, que, pelo contexto recheado de material, tinha tudo para ser rica em conexão, apelo emocional e drama, sempre fica no quase, se escorando viciosamente em conveniências para amarrar pontas e justificar atos. Ao meu ver, isso se dá claramente por um problema de tempo, já que tudo é muito apressado para desenrolar os conflitos, o que acaba tornando as motivações dos personagens pouco convincentes. Esse problema grita na relação conflituosa entre o próprio Besouro e seu ex-melhor amigo Quero-Quero. Apesar de ser um arco que fala muito sobre lealdade, a influência do inimigo e arrependimento, o processo que leva ao desfecho é tão corrido que não nos faz sentir a conexão necessária para nos acomodarmos com a justificativa. A verdade é que esse filme merecia mais do que 1h34min.
Mas então o que faz esse longa ser tão estimado (pelo menos por mim)? Bom, digo que, especialmente e simplesmente, a premissa da obra. Quando colocamos de um lado da balança a fragilidade do roteiro, as conveniências e a velocidade em que a trama se desenrola, fica muito leve quando entendemos que, do outro lado, tem uma história que fala de um herói brasileiro negro, que luta contra a escravidão, usa como arma a capoeira, tem uma questão mística de religião e ancestralidade e ainda voa. Vale reforçar aqui, antes de prosseguir com o argumento, que partilho da crença de que de nada vale abordar questões sociais importantes de nossa realidade sem um método robusto, capaz de potencializar esses sentimentos e impedir que se tornem meras pautas vazias. Entretanto, o manuseio desses elementos é justamente uma das forças do filme, que consegue, às vezes de forma mais habilidosa, outras menos, mobilizar nossas emoções e compreender perfeitamente a responsabilidade da luta pela liberdade e pelo pertencimento que a obra carrega.
É claro que uma ideia, se não bem executada, não tem condições de carregar um filme por si só, e esse não é o caso de Besouro, apesar da minha provocação. O longa tem, sim, suas “trufas”, com uma fotografia belíssima, uma ambientação muito interessante, cenas de ação empolgantes e épicas, e uma ancestralidade religiosa que traz camadas de um universo próprio. A presença da capoeira, os elementos ligados às religiões de matriz africana e a própria construção de Besouro como uma figura quase mítica ajudam a dar corpo a esse imaginário, enquanto a violência e as desigualdades presentes na narrativa escancaram um Brasil de época aparentemente distinto, mas fortemente apegado ao cotidiano. O mérito está justamente em fazer com que esses elementos convivam dentro da mesma narrativa: a capoeira vira linguagem de combate, a espiritualidade interfere diretamente na trajetória do protagonista, e a violência daquele período não aparece como pano de fundo, mas como parte da própria construção desse herói.
Meu ponto, que me faz considerar essa obra uma das minhas preferidas para indicações, é que o potencial do imaginário popular que esse longa carrega é muito gostoso de fantasiar. Pense se nossas crianças crescessem se espelhando em um herói como esse? O quanto de representatividade legítima poderia se refletir em nossa formação cultural, e o quanto de personalidade nossa cultura de entretenimento poderia ganhar, tornando-se um marco de popularidade capaz de impulsionar todo um cenário, não só no cinema, mas na literatura, na televisão, nas histórias contadas e em todo contexto social em que somos inseridos. Nem que fosse para ser capturado pelo capitalismo, com bonecos, camisas, estojos e mochilas. Seria muito prazeroso ter o Besouro como um símbolo nacional de nossa própria cultura pop.
Besouro é um filme de legado de resistência e puramente de luta de classes. Portanto, deixo aqui meu último apelo: deixe de lado os pequenos defeitos e se entregue ao mar de possibilidades que essa obra pode nos proporcionar.