Somente o brasileiro é capaz de dar risada de situações absurdas e moralmente questionáveis. Fazer o que, é nosso jeitinho? E no panteão de cineastas que colocam a comédia como protagonista de situações criminosas, está Jorge Furtado. Ele já fez o público torcer por falsários, assassinos, e agora nos coloca na posição de cúmplices de um grupo de pessoas que ultrapassam os limites da privacidade. Mas calma, respira, não é da forma que você imagina e muito menos motiva o público a fazer o mesmo.
Em Muito Prazer acompanhamos Rubem (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo que herda um motel decadente de seu tio. Ao chegar no local, Rubem descobre uma residente clandestina, a excêntrica Grace (Luisa Arraes), que na verdade é uma ex-funcionária. Determinados a saírem do vermelho, eles se empenham para restabelecer o funcionamento do Motel Pérola. Com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), o grupo elabora um plano extremamente inusitado: a venda dos vídeos feitos por câmeras escondidas nos quartos dos clientes.
Diante dessa proposta, quem em sã consciência torceria para o trio se dar bem? Tive essa resposta durante uma sessão-debate muito especial no Cine Belas Artes em Belo Horizonte, com a presença do diretor e do protagonista. Com mediação de Zoe di Cadore e participação de Ana Bárbara Gomes, Jorge e Daniel discutiram as complexidades envolvendo intimidade e privacidade na era da tecnologia. Mas antes de contar mais sobre esse bate-papo, vou deixar minhas impressões do filme.
Apesar de conhecer os principais trabalhos de Jorge Furtado, faz algum tempo que não revisito seus filmes. Assim que vi o trailer de “Muito Prazer”, imaginei que o sexo seria o grande protagonista – como eu me enganei! Tirando alguns palavrões pontuais, o filme é bem family friendly. O único elemento explícito é o alerta constante do crime que os personagens estão cometendo. O crime de vazar imagens íntimas de terceiros por si só já é um assunto vasto e com muito pano pra manga, mas aqui o filme encontra tempo para explorar outros temas e gêneros. A comédia é destaque, mas vemos um romance florescer em meio a tantos problemas em que os personagens se envolvem.
O tempo todo somos lembrados de qual limite eles estão ultrapassando e quais manobras vão utilizar para se livrar da cadeia, e é na pele de Nalva que muitos desses problemas são contornados. Embora ela seja a coadjuvante – tal qual Lázaro Ramos foi em “Saneamento Básico” -, aqui ela se destaca igualmente, e vou além: enquanto em “Saneamento Básico” todo mundo brilhou, aqui Samantha Jones mostra um carisma que ultrapassa o dos protagonistas, mérito total de sua intérprete. Sua personagem é muito segura de si, inteligente e decidida em todo o envolvimento nas tramoias do Motel Pérola.
Já Daniel de Oliveira é aquele cara tímido, que só quer tirar o pé da lama e vai tropeçando em soluções alternativas para pagar suas dívidas. Embora seja determinado, a maioria das decisões são tomadas pelas mulheres à sua volta. Grace é destemida, não tem ninguém que a prenda – pelo menos inicialmente -, o que a leva a colocar a cara a tapa no esquema de vazamento de vídeos íntimos, literalmente. Afinal, se ela assumisse a identidade das frequentadoras do motel se expondo na internet, ninguém seria prejudicado, certo? Luisa entrega uma performance por vezes exagerada, mas como isso faz parte da personalidade de sua intérprete, logo perdemos a sensação de estranheza.
Não consigo abordar os outros assuntos do filme sem dar spoiler, então minha recomendação é ir ao cinema e prestigiar uma comédia sofisticada que há tempos o Brasil não via. Na minha sessão a sala estava cheia, e durante a exibição houve uma reação calorosa do público. A obra é recheada de piadas inteligentes e situações absurdas, e foi se criando um clima delicioso à medida que o filme avançava. Foi graças a uma reação tão positiva que o debate enriqueceu uma experiência que já tinha sido excelente.
A partir daqui terão spoilers, então sugiro voltar para ler esse trechinho depois do filme.
A entrevista começou com Zoe questionando sobre o processo de construção da narrativa e como foi abordar um tema tão sensível. Jorge, bem-humorado, falou sobre seu algoritmo ter ficado bem safadinho com suas pesquisas envolvendo suítes de motéis, muitos cliques em sites adultos e as consequências de cometer o crime de vazamento.

Sessão debate em Belo Horizonte.
Da esquerda pra direita: Zoe di Cadore, Jorge Furtado, Ana Bárbara Gomes e Daniel de Oliveira.
Daniel falou sobre as condições de filmagem, que levaram 25 dias segundo a produtora Nora Goulart, quase sempre com frio ou chuva – mas em momento nenhum a equipe ficou esmorecida, pois teve o apoio da Casa de Cinema de Porto Alegre, que se certificou de recebê-los com muito chá e cobertores quentinhos para aguentar o frio do sul.
A conversa avançou com perguntas do público, e quando chegou minha vez, questionei o diretor se, entre suas motivações para criar o roteiro, houve uma reflexão sobre o momento de conservadorismo que vivemos entre os jovens, e se ele achava que esse filme contribuiria para abrir a mente da garotada. Ele respondeu com esperança que sim – a construção do filme foi pensada justamente para gerar debate sobre o prazer íntimo, e mais do que conscientizar o público a respeito do vazamento de imagens íntimas, ele também seguiu um caminho de naturalizar o sexo, mostrando que nem sempre precisamos ser explícitos para conversar abertamente sobre o tema.
Em outro momento, foi discutida a dificuldade que os personagens enfrentam sendo trabalhadores que, mesmo cometendo um crime, mantêm uma linha moral que não ultrapassam. O tempo todo no filme surge a pergunta: é crime, mas é muito crime? Ou seja, eles querem sair dessa situação de vulnerabilidade social, mas em momento nenhum a intenção é prejudicar alguém – e oportunidades não faltam para que fizessem isso. No fim do dia, tudo o que uma pessoa decente quer, é ser amado e pagar as contas.
Acredito que, em tempos de cinema megalomaníaco por super-heróis, é de suma importância dar nosso dinheirinho para a bilheteria de uma obra nacional tão bem intencionada e executada de forma competente. E o público brasileiro é o único que vai apreciar essa obra por inteiro – então por que não trocar um filme do MCU por uma boa comédia?