Descoberto por Guy Ritchie no final dos anos 90, Jason Statham compôs o elenco de vários dos seus filmes nos quais o humor ácido era mais importante do que a ação propriamente dita. Em 2002, contudo, o ator daria uma interessante guinada de estilo ao estrelar Carga Explosiva (Louis Leterrier), filme-símbolo do retorno a um tipo de herói que brilhou nos anos 80 e perdeu força na década seguinte.
Adaptando o clássico “brucutu” aos anos 2000, seu protagonista ainda resolveria basicamente tudo através da fisicalidade, porém mais polida e formal, baseada em coreografias estilizadas (plasticidade trazida por Corey Yuen, lenda do cinema de Hong Kong) e na preocupação com a identidade visual, uma vez que seu terno bem alinhado é parte relevante da sua personalidade.
A obra catapulta o britânico, sobretudo no home vídeo, e marca o início da sua consolidação como action hero, sendo requisitado em inúmeros projetos, alguns muito interessantes, como Os Mercenários (2010), que se vale da nostalgia do gênero que o próprio revitalizara, e Megatubarão (2018), creature feature amalucado e divertidíssimo. Contudo, uma vez que fugir da irregularidade é raro nessa indústria vital, o astro costurou sua carreira também com filmes genéricos, desinteressantes e com cara de descarte de streaming, que é o caso do seu último longa, Código: Vingança.
Na obra comandada por Jean-François Richet, diretor francês que estreia em Hollywood no duvidoso remake do clássico de John Carpenter, Assalto à 13ª DP (2005), Statham encarna Cole Reed, ex-forças especiais londrino radicado na Tailândia, atualmente chefe de segurança do magnata da área marítima Tibu Campallo que, após realizar a venda do seu império a pedido do herdeiro, é morto num atentado no qual Cole falha. Em busca de vingança, ele segue para um dos navios da empresa, guiado pela única evidência disponível.
A despeito da competência de Statham, tanto na entrega de carisma quanto em personificar a invulnerabilidade do herói clássico, filmes que partem dessa premissa dependem profundamente da contraparte narrativa do protagonista, uma vez que este e suas conquistas são tão grandiosas quanto os obstáculos a serem transpostos. Compromete-se, então, essa dinâmica, já que, além de incapazes de passarem qualquer noção de ameaça, todos os antagonistas são completamente genéricos, indistinguíveis visualmente e desprovidos de habilidades únicas que poderiam servir para aumentar a riqueza das sequências de ação. Por consequência, o confronto final com o vilão máximo, talvez a convenção mais importante do gênero, se perde e falha no payoff, já que, além de todos esses problemas, o roteiro também não se encarrega de construir de forma competente a rivalidade entre os dois.
Em contraponto, grande acerto reside na dinâmica entre Cole e Angie Ellis, vivida pela ótima Annabelle Wallis, tripulante chamada a bordo de última hora e alheia às atividades criminosas praticadas. Apesar de não dispor de um texto brilhante com o qual trabalhar, Wallis é cativante o suficiente para gerar química como aliada do herói. Além disso, ela serve também de estopim para desenvolver duas desnecessárias subtramas que, mesmo deslocadas, não são pecados capitais propriamente, porém acabam por enfraquecer a trajetória da dupla.
Igualmente vacilante é a ação realizada por Richet pois, além de propor uma decupagem inofensiva, ao ponto de não permitir margem de erro ou acerto por ser tão básica, garantindo assim a mera banalidade, também peca quando opta por intercalar cenas de respiro demasiadamente longas com cenas breves de conflito, tornando esse filme um dos mais monótonos da carreira de Statham, quase que por completo desperdiçando o que ele tem de melhor. Mas, ainda assim, por mérito do ator, algumas poucas sequências provocam catarse moderada.
No final do dia, Código: Vingança é um filme que provavelmente vai agradar aos fãs mais fervorosos e, em tempos de Semana do Cinema, é um programa válido, porém acaba por não fazer jus ao seu astro por carecer dos elementos mais basilares do gênero.