Além do Believe: Como Ted Lasso encarou a ansiedade e o luto

Publicado 9 minutos atrás

À primeira vista, Ted Lasso veste a típica trama de uma comédia despretensiosa sobre um treinador americano de futebol americano que assume um clube rebaixado para a EFL Championship (2º Divisão Inglesa). O otimismo exagerado, os biscoitos caseiros e as frases de efeito constroem uma atmosfera leve que quase nos faz esquecer a complexidade do mundo ao redor. No entanto, o que move a narrativa ao longo de suas quatro temporadas é um conflito muito mais sutil e doloroso: o impacto de esconder as próprias feridas sob uma máscara de positividade e o custo emocional de tentar ser o porto seguro de todo mundo.

No centro dessa engrenagem está o famoso cartaz amarelo com a palavra “BELIEVE” (Acredite), colado com fita adesiva torta acima da porta do vestiário do AFC Richmond. Se nas primeiras temporadas o lema surge como um dogma quase ingênuo de motivação, a condução da série cuida de transformar esse pedaço de papel em um espelho incômodo sobre as nossas próprias expectativas e fragilidades.

A série se destaca justamente pela coragem de desarmar seu protagonista. Ted (Jason Sudeikis) recusa o arquétipo do herói inabalável; ele é o homem que usa o afeto e a piada rápida como uma armadura para evitar encarar suas próprias fissuras. Quando a ansiedade finalmente o alcança, a narrativa recusa o caminho do melodrama fácil ou do alívio cômico raso. Os ataques de pânico de Ted surgem de forma sufocante e silenciosa para o mundo exterior. O ápice disso ocorre no meio do caos de um estádio lotado, quando o barulho da torcida se transforma em algo distante e o ar simplesmente lhe falta no peito. A cena recusa atalhos: o pânico é físico, o desespero é real e a única opção do treinador é abandonar o campo.

Ao introduzir a presença da psicóloga Dra. Sharon Fieldstone (Sarah Niles), o roteiro deixa claro que a cura não virá de um discurso motivacional de vestiário. A narrativa economiza nas saídas mágicas porque sabe que a dor real exige o desconforto de sentar em silêncio, nomear os traumas do passado e encarar o luto não resolvido da morte trágica do seu pai. O otimismo irrestrito de Ted é desconstruído não como uma virtude pura, mas como um mecanismo de defesa contra o colapso.

Essa mesma maturidade se reflete na trajetória da própria placa amarela. No início, o “BELIEVE” funciona como a ilusão de que a boa vontade é capaz de resolver qualquer problema ou impedir a dor. Em seguida, vem o choque com a realidade e a constatação de que “acreditar” não impede derrotas, divórcios, ataques de pânico ou a perda do controle. Por fim, surge a maturidade do afeto: a compreensão de que o lema não serve para garantir desfechos felizes, mas para dar sustentação e coragem quando tudo ao redor desmorona. O cartaz é rasgado na reta final da trama, a série entrega sua virada temática mais poética. A magia e a força do lema nunca estiveram na palavra impressa no papel colado na parede, mas na disposição interna daqueles indivíduos em se mostrarem vulneráveis, aceitarem suas falhas e se ajudarem no processo de reconstrução.

Assim como nos melhores estudos sobre o amadurecimento humano, o sentimento em Ted Lasso se estabelece nas brechas e no não-dito: no olhar acolhedor de Rebecca durante uma crise de pânico, no abraço silencioso em meio ao luto ou na coragem do treinador em expor suas fraquezas para a imprensa. Ao tratar a saúde mental sem sensacionalismo e desconstruir a obrigação do sorriso constante, a série nos lembra de uma verdade simples: o verdadeiro ato de bravura não é parecer forte o tempo todo, mas ter a coragem de admitir que não está tudo bem.

Por fim, Ted Lasso é uma obra profunda sobre a beleza e a dor de cicatrizar, provando que o famoso lema só ganha sentido real quando aprendemos a acreditar em nós mesmos e no outro inclusive, e principalmente, nos dias em que a ansiedade nos faz fraquejar.

Autor

  • Paulista, estudante de Cinema e crítico no O Cinema É. Apaixonado por cinema e literatura. Com carinho especial por Shakespeare, Titanic e Game of Thrones, cobriu recentemente o Festival de Cannes 2026

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Ted Lasso poster
Ted Lasso
A14
Criação: Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Joe Kelly

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