Fazer cinema no Brasil costuma ser um ato de pura insistência. Em Morte e Vida Madalena, o diretor Guto Parente parte dessa premissa para construir uma comédia dramática que tenta se equilibrar entre o caos da produção audiovisual independente e os dramas pessoais mais profundos de sua protagonista.
O filme acompanha Madalena (Noá Bonoba), uma produtora grávida de oito meses que precisa assumir o comando de uma ficção científica B escrita por seu pai recém-falecido. Como se a dor do luto e a proximidade do parto não fossem suficientes, a rodagem vira um completo caos quando o diretor do longa que também é seu ex-marido desaparece misteriosamente do set.

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A escolha de abordar o luto e a maternidade com bom humor confere à produção uma leveza inicial muito bem-vinda. Em vez de se entregar ao melodrama, Parente prefere focar nos improvisos e nas soluções mambembes que a equipe precisa encontrar para manter a filmagem de pé. O contraste entre a vida real e o cenário tosco do filme dentro do filme garante ótimos momentos de comédia no primeiro ato.
O grande acerto do longa ao meu ver, está na interpretação de Noá Bonoba. Ela segura a obra com uma atuação precisa, transitando entre o esgotamento da reta final da gravidez, a saudade do pai e a determinação de entregar a obra concluída. É através do seu olhar que o espectador vivencia o carinho, e se sente mergulhado na trama.
No entanto, o filme sofre por bater demais nessa tecla. Conforme a narrativa avança, a rotina do set começa a soar repetitiva e o ritmo se torna arrastado. As piadas sobre o improviso da produção desgastam a premissa, fazendo com que o segundo ato perca o fôlego inicial. Além disso, a opção por manter o tom despretensioso impede que a dor do luto e os dilemas morais da protagonista alcancem o clímax emocional que a história pedia.
As metáforas visuais que conectam a criação artística à maternidade continuam lá, mas o impacto dessa mensagem se dilui na lentidão do final.
Ao fim, Morte e Vida Madalena entrega um retrato carismático e afetuoso sobre a persistência cultural, apoiado em ótimas atuações. Ainda que se perca na própria barriga de ritmo e evite aprofundar suas feridas mais dramáticas, a obra de Guto Parente conserva charme suficiente para valer a experiência.