Existe uma prática comum em Hollywood que consiste em transformar estrangeiros em ameaças, não necessariamente por uma dinâmica de ação/reação narrativa, mas simplesmente por sê-los. Tal fenômeno, chamado de outrificação, já fez uma dúzia de vítimas: orientais, ciganos, nativos americanos, povos do leste europeu e, sobretudo, mexicanos. A depender do gênero, muda-se a intenção, mas a xenofobia sempre está presente: no terror, representam o medo do místico, do exótico desconhecido, do amaldiçoado; na comédia são os intelectualmente inferiores, vide Idiocracia (Idiocracy, 2006), longa escrito por Mike Judge que retrata uns distópicos EUA atingidos por um brutal emburrecimento, previsivelmente fotografado com o famigerado filtro sépia Tijuana e embalado por riffs à la Santana.
Ironicamente, no cinema asiático, principalmente na Coreia do Sul, onde a dinâmica com os vizinhos do sudeste é conturbada, encontramos relação similar que acaba por ser a toada do longa A Reencarnação do Diabo (Incarnation, 2025), dirigido por Roh Hong-jin. No filme, acompanhamos Talia (Stephanie Lee), freira detentora de poderes sobrenaturais que se alia ao detetive Oh (Lee Shin-Seong) numa investigação sobre estranhos suicídios aparentemente sem explicação.
O péssimo roteiro não só falha em entregar um mistério interessante, já que nada é conectado de forma orgânica, como também não consegue desenvolver o conflito central entre a protagonista e a ameaça metafísica. Existe uma tentativa de concatenar subtramas relacionando Talia, o detetive e um núcleo de imigrantes, mas a execução não passa de uma pulverização aleatória de acontecimentos que, por fim, depende de plot twists tirados da cartola sem o menor pudor.
Ainda sobre a superficial premissa, Talia ser retratada como católica não é fruto do acaso. Tal escolha opera tanto mercadologicamente, uma vez que o gênero nunsploitation moderno se fortalece mundialmente após A Freira (The Nun, 2018) ganhar as telas, quanto tematicamente, pois reforça o papel de protagonista imaculado e divino, profundamente atrelado à noção ocidental desse tipo de trama. Dessa forma, apelar para um símbolo cristão, ainda que numa sociedade situada minoritariamente na denominação, ecoa com a escolha da vilã: uma xamã vietnamita encarnando o mais maniqueísta dos males.
Além do equivocado plot, que conseguiria ir além do mero preconceito contra estrangeiros caso fosse aprofundado, o filme peca também no ritmo e na estética. O diretor opta por costurar sua narrativa com flashbacks, o que demanda decupagem e montagem muito afinadas. Essa quebra no fluxo cronológico, em vez de somar, faz do enredo uma estrada esburacada, o que causa parco estabelecimento de motivações pessoais, causas e consequências, além de deixar inúmeras pontas soltas. Outra consequência dessa falta de entrosamento entre os dois setores é a péssima organização geográfica dos personagens, irremediável até pelo melhor GPS disponível. Por conta de elipses mal ajambradas entre o vaivém temporal, por vezes é impossível saber onde e quando nossos heróis estão.
Mas dentre uma miríade de erros, alguém haveria de levar a coroa, e essa vai para a fotografia. Apesar de ser uma batalha aparentemente perdida, vale sempre pontuar sobre como a arte de iluminar um filme se perdeu de forma inacreditável. Incarnation sofre dessa pasteurização, presente sobretudo nos filmes destinados aos streamings, em que tudo parece pensado na pós-produção e nada mais é feito no set. O resultado em tela é invariavelmente artificial e esquecível, fruto da correção de cor 100% digital que falha em imprimir medo, tensão ou qualquer sentimento, exclusive raiva.
Diferente do seu conterrâneo O Lamento (The Wailing, 2016), outro terror que, apesar de também lançar mão do tropo da ameaça estrangeira, prospera em todos os outros aspectos e vai além do embate “civilizado versus selvagem”, A Reencarnação do Diabo escorrega em premissa, execução técnica e atuações. Propondo-se ser um terror, talvez se salvasse caso gerasse medo, mas até nessa camada mais basilar do gênero, falha miseravelmente.