Dario Argento nunca teve a pretensão de fazer de sua obra-prima um exercício de lógica narrativa ou profundidade temática. Suspiria é, antes de qualquer coisa, uma experiência sensorial. Aqui, o pesadelo é dançado com luz, cor e som; e é nesse espaço de viagem estética que o filme encontra sua verdadeira forma. A proposta é simples: agredir a audiência tanto visual quanto sonoramente. E é brilhantemente bem-sucedido ao fazê-lo.
Logo na abertura, quando Suzy Bannion (Jessica Harper) chega ao aeroporto sob uma tempestade impossível, fica claro que o realismo foi abandonado na porta. O vermelho saturado, os azuis e verdes artificiais (e lindos), os corredores labirínticos da escola de dança: tudo compõe um universo que parece pintado à mão. Como se Mario Bava fluísse diretamente na paleta de cores e Argento mergulhasse nela com voracidade expressionista. A realidade aqui é apenas uma moldura que serve para destacar o delírio hipnótico que se segue.

O destino interrompeu o Titanic, mas o cinema imortalizou Rose e Jack.
A trilha sonora, composta pela banda Goblin em parceria com o próprio Argento, talvez seja a peça mais vital dessa arquitetura sensorial. Não é música de fundo, é música em primeiro plano. Barulhenta, tribal, agressiva, agressora, marcada por sinos, sussurros e batidas dissonantes. Ela não acompanha o terror: ela o impõe, o cria.
Do ponto de vista narrativo, Suspiria é irrelevante. A trama da escola de balé tomada por bruxas é esquelética, fragmentada, um mero pretexto que não merece destaque algum. Os diálogos são mínimos (e dublados, como em boa parte do cinema italiano da época), personagens coadjuvantes desaparecem com facilidade, e perguntas permanecem sem resposta. Entretanto, frustrar-se com a fragilidade narrativa é perder completamente o ponto de Argento: o cinema é audiovisual. Ele te apresenta visual, te apresenta áudio. Pronto. Puro. Simples. Efetivo.
A experiência é o que importa, e ela é grandiosa. Como se lêssemos um conto de fadas sombrio e sangrento, o que fica não é o horror, mas sim encantamento macabro. Poucos filmes em minha vida me deixaram com tamanha sensação de que algo estava fora do lugar, de que algo ali era sinistro, ou até mesmo vil. Sensação essa obtida com a ajuda de ângulos incomuns, ambientes teatrais e a incessante violação sonora.
O diretor filma a violência como se fosse balé. Os assassinatos, longos e quase ritualísticos, são mais coreografados do que críveis. O sangue tem o vermelho mais vermelho do cinema. É claramente falso? É. Mas é o mais vermelho que o vermelho pode ser. E isso basta. Os cenários, inspirados pela arquitetura art nouveau e pela arte do design alemão — o filme italiano, falado em inglês se passa, afinal de contas, na Alemanha — transformam a escola em um personagem próprio, ao mesmo tempo ameaçador e sedutor.
É possível dizer que Suspiria falha como história? Sim. Mas seria como acusar um quadro de Kandinsky de não ter narrativa. A lógica de Argento é outra: o terror como pintura, o medo como som. Mais de quatro décadas depois, Suspiria permanece como um bizarro monumento do terror sensorial, uma obra cuja superfície atrai, invade, e desconforta.




