Clássicos

Um Maluco no Golfe (1996)

Publicado 11 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 4

Com a proximidade do lançamento de Um Maluco no Golfe 2 (Happy Gilmore 2, dirigido por Kyle Newacheck), a Netflix passou a promover seu antecessor, o filme de 1996 estrelado pelo infame astro Adam Sandler. Mas será que essa comédia envelheceu como a maioria dos trabalhos do comediante?

Para responder a essa pergunta, é preciso lembrar sobre o que se trata o filme. Happy Gilmore é um aspirante a astro do hóquei que, além da falta de habilidade, tem sérios problemas de temperamento — um traço recorrente nas comédias “sandlerianas”. Tão recorrente que aparece até mesmo no excelente Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love), de Paul Thomas Anderson, e no divertido Tratamento de Choque (Anger Management), dirigido por Peter Segal.

Leia também
Cidade dos Anjos
Cidade dos Anjos

O que define a experiência humana? Seria a nossa capacidade de raciocinar, de construir sociedades ou, simplesmente, a nossa inevitável finitude? No final dos anos

Incapaz de ingressar nas ligas profissionais do esporte gelado, Happy vive com a avó. A velha, sem motivo aparente, parou de pagar seus impostos, colocando sua casa em risco de ser leiloada pela Receita Federal. Durante a mudança da idosa, alguns carregadores desafiam Gilmore a fazer uma tacada de golfe. Surpreendentemente, ele acerta — e com muita força. Surge então um talento inesperado para o esporte.

A princípio, Happy recebe o treinamento de Chubbs (Carl Weathers, o eterno Apollo Creed), um ex-jogador que teve sua carreira interrompida no auge após um crocodilo devorar sua mão durante uma partida na Flórida. Seu mentor o ajuda a vencer um torneio local e recebe um convite para entrar na liga profissional.

Motivado a arrecadar dinheiro para tirar a avó do asilo — onde vem sendo maltratada por um maquiavélico Ben Stiller em início de carreira —, Happy leva seus rompantes de agressividade e carisma espontâneo para o elitista mundo do golfe. Isso desperta o interesse do público e a inveja de um concorrente, Shooter McGavin (Christopher McDonald, talvez o ator com a maior cara de babaca da história do cinema).

Neste breve resumo, já percebemos o tom escolhido por Sandler e sua turma: o absurdo. Diversos momentos nonsense conduzem a narrativa para um lugar tão ridículo quanto hilário. A graça está justamente em não levar nada a sério. Um exemplo disso são os diálogos de Gilmore com o seu rival.

Nenhum filme que tenta soar “decente” escreveria algo tão infantil — e é aí que está a beleza. Esse tipo de humor lembra os clássicos diálogos de Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu! e outras obras do trio ZAZ. É uma fase da carreira de Sandler (de Billy Madison até Little Nicky) conhecida pela quantidade de babaquices por segundo. A exceção talvez seja O Paizão, que, embora flerte com o absurdo, tem um coração mais visível.

Embora não agrade a todos os públicos — especialmente os fãs da fase romântica de Sandler, de Afinado no Amor (The Wedding Singer) a Juntos e Misturados (Blended), ambos dirigidos por Frank Coraci — a obra se beneficia do ridículo. Mesmo parecendo datado em alguns momentos, ainda arranca boas risadas.

O absurdo é tão grande que nos dá a sensação de, após muito tempo, termos encontrado um pequeno tesouro esquecido. Contudo, existem problemas, bem conhecidos, diga-se de passagem. No meio das situações cômicas, enfrentamos clichês cansativos até para fãs da filmografia de Sandler. Temos em Um Maluco no Golfe: o romance forçado, o duelo entre o redneck esperto e o riquinho arrogante. Também é presente o protagonista imaturo que inexplicavelmente conquista a mulher mais bonita do pedaço. E claro, participações especiais sem sentido e merchandising quase pulando para fora da tela…

Assistir Um Maluco no Golfe em 2025 é como mergulhar em uma fossa séptica e, a cada mergulho, encontrar uma pérola. Nem todos topariam a proposta. Todavia, para os desesperados por entretenimento, tapando o nariz, é possível sair com algum resultado lucrativo. Voltando à resposta da pergunta inicial: Happy Gilmore envelheceu melhor do que se poderia esperar — justamente porque nunca se levou a sério.

Portanto, para quem, como eu, vive entre encontros voluntários (ou forçados, via Sessão da Tarde ou TV por assinatura) com Sandler, essa experiência é uma loteria emocional. Ao ver um filme dele, sinto-me como o Sísifo de Camus. Ao terminar Um Maluco no Golfe, é como se a pedra tivesse parado no topo do morro por um instante. Mas eu sei que, até a estreia de Happy Gilmore 2, ela vai rolar ladeira abaixo — e lá vou eu de novo, acreditando sem acreditar, que filmes do Adam Sandler valem a pena ser assistidos.

Autor

  • Mestre em história pela UFOP. Apaixonado por cinema desde que se entende por gente. Após terminar sua pesquisa sobre o cinema brasileiro da década de 1980, decidiu se aventurar deixando registradas suas impressões sobre as mais diversas obras cinematográficas.

Compartilhar
um maluco no pedaço

Um Maluco no Golfe

Happy Gilmore

País: Estados Unidos

Diretor(a): Dennis Dugan

Roteirista(s): Tim Herlihy, Adam Sandler

Elenco: Adam Sandler, Christopher McDonald, Carl Weathers, Ben Stiller

Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *