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Wacko – Uma Comédia Maluca

Publicado 2 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3

Você já imaginou como seria a série de filmes Todo Mundo em Pânico (2000–2026) se tivesse sido feita nos anos 1980? Nunca? Pois bem: estamos aqui para apresentar essa possibilidade — e ela existe em Wacko, filme dirigido em 1982 (que por aqui ganhou o tenebroso título Wacko – Uma Comédia Maluca). A obra parodia os clichês dos filmes daquele período, anos antes de os Irmãos Wayans transformarem isso em moda.

O filme tem como protagonistas cinco jovens, liderados por Mary (Julia Duffy). Ainda crianças, eles testemunham alguém assassinar brutalmente a irmã da garota. O Criminoso agiu vestindo uma cabeça de abóbora e armado com um cortador de grama. Treze anos depois do ocorrido, quatro deles convivem na mesma escola e se preparam para o baile.

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Mary e seu namorado, Norman Bates (Scott McGinnis), planejam perder a virgindade após a festa. O problema é que ele sofre de uma sequela terrível (e cômica): toda vez que fica excitado, começa a imitar o barulho de um cortador de grama. Em certo momento, a moça passa a ter traumas justamente com esse som. Digo “em certo momento” porque até o trauma da protagonista é tratado como piada. Este muda constantemente conforme os clichês dos filmes de terror, especialmente no que diz respeito às mocinhas traumatizadas.

Além de Mary e seu namorado, as outras testemunhas do ataque são duas amigas. Uma delas (Michele Tobin) forma um casal engraçadíssimo com Tony (Andrew Dice Clay), que é basicamente um sósia de John Travolta em vários de seus sucessos da década de 1970. Tony Manero, de Os Embalos de Sábado à Noite, inspira seu nome, enquanto suas roupas e maneirismos misturam referências a Grease e Carrie, a Estranha.

A outra amiga de Mary (interpretada por Elizabeth Daily) é uma adolescente desesperada por um par para o baile — e por um namorado — já que, neste universo, todo mundo na escola está permanentemente tomado por desejo sexual. Trata-se de uma brincadeira divertida com os adolescentes dos filmes de terror, sempre disponíveis para sexo e/ou nudez, algo que foi moda no gênero até bem recentemente. A pobre moça vive segurando vela para as amigas.

Paralelamente à trama do baile, acompanhamos o policial Dick Harbinger (Joe Don Baker), que persegue o assassino há treze anos. Durante sua investigação, um sujeito perturbado e obcecado pelo caso foge do hospício. Ao mesmo tempo, sinais nada sutis começam a surgir — como um cortador de grama arremessado pela janela da casa dos pais de Mary (em vez de uma pedra ou um tijolo) —, levando Dick a suspeitar do envolvimento do fugitivo.

Além do humor totalmente idiota, semelhante ao das comédias do trio ZAZ (Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu, Corra que a Polícia Vem Aí), ainda que um pouco menos inspirado, o filme abusa das referências ao cinema de terror. Na busca por suspeitos, surgem o zelador estranho, o vice-diretor fundamentalista religioso e até Tony, que do nada gira o pescoço e vomita, como em O Exorcista (1973). Mas o que realmente se sobressai, no quesito referências, são as homenagens a Alfred Hitchcock.

Volta e meia ouvimos Funeral March of a Marionette, tema do programa Alfred Hitchcock Presents (1955–1965). Em determinado momento, a protagonista sonha que pássaros a atacam, em clara referência ao clássico Os Pássaros (1963). Na prática, porém, estudantes usando chapéus de pássaros a atacam — solução que a produção adotou por conta do baixo orçamento. Felizmente, isso aconteceu décadas antes da popularização da computação gráfica acessível. Certamente evitou que a cena fosse feita com PNGs mal recortados, como em Birdemic. O resultado acaba sendo ainda mais engraçado.

Outras referências criativas (além do nome do namorado de Mary) incluem o nome da escola (Hitchcock) e uma cena divertidíssima em que o irmão sobrenatural de Mary — outra brincadeira com um tropo comum do gênero — passa a noite do baile com a mãe do namorado da irmã: Norma Bates, um esqueleto, em clara alusão a Psicose (1960).

Outro destaque positivo é George Kennedy, que interpreta o pai tarado da protagonista. Todas as suas aparições são bizarras a ponto de se tornarem impagáveis. Por exemplo: Em determinada cena, ele não encontra seu bisturi. Então, ele simplesmente pega emprestado o cutelo da cozinha para operar um paciente no hospital! Kennedy, em plena transição de papéis “sérios” para cômicos — entre a comédia não intencional Aeroporto 80 – O Concorde (1979) e a comédia de fato, Corra que a Polícia Vem Aí (1988)—, entrega caras e bocas no melhor estilo do falecido Leslie Nielsen (que, ironicamente, teve trajetória semelhante, do drama para a comédia). É um ponto alto do filme e garante boas risadas.

Wacko é um filme tosco, claramente limitado por orçamento — mas também é consciente disso. É uma divertida curiosidade para fãs de terror das décadas de 1960 a 1980. Para quem sente saudade das comédias infames que passavam na TV aberta, trata-se de uma obra surpreendentemente honesta em sua proposta. Uma obra estranha e por vezes ofensiva, mas que cumpre seu papel: rir do terror quando o terror ainda levava tudo a sério demais.

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Wacko (1982) - poster

Wacko – Uma Comédia Maluca

Wacko

País: Estados Unidos

Diretor(a): Greydon Clark

Roteirista(s): Dana Olsen, Michael Spound, Jim Kouf

Elenco: Joe Don Baker, Stella Stevens, George Kennedy

Idioma: Inglês

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