Crítica de filme

Faça Ela Voltar

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 3.8

Faça Ela Voltar (Bring Her Back), a atual empreitada dos irmãos Philippou, conhecidos por Fale Comigo (Talk to Me), é certamente um filme que impacta e destrói o emocional. Apesar de o primeiro grande filme da dupla ser bastante dramático, em seu roteiro e cenas havia também muitos toques de comédia que surtiam um efeito anestésico na platéia, ajudando a nivelar as emoções. Agora, em 2025, eles abandonaram o humor, mesmo que em doses pequenas, e apostaram completamente no drama e na treva.

O roteiro aqui é esperto, montando os acontecimentos de forma que nada pareça fora do lugar, mas sempre deixando brechas para que o espectador pense um pouco e alimente a dúvida. Há também a dosagem do drama, que nunca passa do ponto e, em determinado momento, se une muito bem ao horror. Quando, então, o incômodo é inserido na obra, não há respiro que salve o espectador. São falas que incomodam, olhares, acontecimentos que te fazem pensar o que está acontecendo, além, claro, da violência. A narrativa, unida ao roteiro, trabalha na iminência de coisas horríveis por vir, e deixa que você se desespere querendo que aquilo acabe (de forma positiva) até perceber que não existe forma de escapar.

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Com muito potencial desperdiçado, ‘Venom’ veio com violência higienizada, dinâmica frouxa e uma trama oca, desprovida de diversão.

A direção retrata muito bem o drama dos três protagonistas, além de mostrar os elementos do ocultismo/bruxaria de forma muito coerente e até realista. Não há dúvida para o espectador que tudo aquilo pudesse acontecer, muito pela natureza da magia retratada e pela sua própria evocadora. Mesmo assim, acredito que, na tentativa de fortalecer o clima de terror, os diretores acabam por forçar um pouco. Em muitos momentos acontece de a personagem de Sally Hawkins rever fitas macabras que são bastante incômodas sim, mas que depois de tanto repetidas, se tornam cansativas. E, como se não bastasse, esses momentos ainda entregam muito o que acontece no ato final, deixando-o com aquele teor de requentado.

Os diretores acertam, no entanto, em todo o resto, alimentando o drama com a relação dos três, a estranheza com o garoto na casa, mostrando a própria casa desarrumada e em mau estado, a forma como a alegria constante de Sally Hawkins é incômoda. Tudo contribui para que a experiência e o próprio final ainda sejam altamente satisfatórios.

Agora, falando de fato das atuações, acredito que o destaque vai para Sally, que demonstrou vivacidade, mas também periculosidade nas doses certas. Sua personagem é mal-intencionada, contudo, também se mostra feliz, brincalhona, e seus sorrisos são tão sinceros, e suas falas são tão vivas, ela apenas não parece ser alguém ruim, e então, quando é mostrado que sim, ela se torna ainda mais aterrorizante. A mulher parece sentir as coisas à flor da pele, com medo de tudo, mas também determinada a fazer de tudo. Mesmo que não perca seus objetivos de vista, é satisfatório ver como Sally conseguiu mostrar culpa na personagem constantemente.

A interpretação de Sally é tão bem sucedida que conquista ambas, a simpatia e a antipatia do espectador, e com certeza é uma experiência complicada sentir os dois por alguém tão conflituoso. No mais, os outros dois atores me pareceram muito bem intencionados em seus papéis, e acertam bastante, mas não chegaram a me fazer brilhar os olhos. Gosto, entretanto, do toque de vulnerabilidade usado pela direção, deixando o espectador agonizar vendo os dois irmãos “presos” naquela casa. O grande mousse aqui está no terror, no drama e em Sally.

Faça Ela Voltar é um filme sobre amor e luto, o que muitas vezes resulta no ódio, na falta e no arrependimento. Esses temas estão pairando aqui e ali durante todo o longa, casados ao terror que nos deixa presos na cadeira em extrema agonia. É uma obra poderosa que, sim, é capaz de conversar com muitas pessoas e de provocar sentimentos desconfortáveis, porém necessários.

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Faça Ela Voltar

Faça Ela Voltar

Bring Her Back
18
País: Austrália
Direção: Danny Philippou, Michael Philippou
Roteiro: Bill Hinzman, Danny Philippou
Elenco: Billy Barratt, Sally Hawkins, Sora Wong
Idioma: Inglês

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