Venom veio em 2018 com a promessa de iniciar um universo compartilhado do Homem-Aranha, mas sem Homem-Aranha. Aqui temos uma obra que finge ter uma estrutura diferenciada dos demais filmes de herói, mas que no fim entrega a exata mesma fórmula adotada pelo subgênero. A ideia base era incrível: um filme mais sombrio e focado num vilão, com possíveis toques de terror e requintes de violência, talvez explorando o lado mais psicológico de lidar com uma criatura parasitária presa a você, te forçando a matar pessoas dos modos mais macabros. No lugar disso, temos o clássico protagonista que é bom no que faz, tem a vida perfeita, mas de repente tudo cai por água abaixo e então, conseguindo super poderes, ele demonstra quem realmente é.
O ritmo do longa é sofrível, com um “desenvolvimento” alongadíssimo para o protagonista Eddie Brock (Tom Hardy), chegando a passar do primeiro ato. Além disso, sua personalidade é completamente furada, ora ele sendo simpático, ora sendo grosseiro. A própria forma como o filme retrata a derrocada de Eddie é de dar pena, porque fica impossível comprar que o personagem realmente está passando por alguma mudança. Ah, e nem é preciso falar sobre a relação dele com o simbionte, que é tão apressada e atropelada, chegando a dar vergonha. Eles passam de uma “parceria” para uma “inimizade” em questão de 20 minutos, falando um com o outro como se já fossem melhores amigos, possuindo até mesmo códigos de luta.

No longa Mestres do Universo, dirigido por Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas) e escrito por Chris Butler e pelos irmãos Adam e Aaron
Também não se pode deixar de falar sobre como a relação entre Eddie e Venom é irritante, com falas genéricas envolvendo chamar o outro de covarde, as constantes intromissões do alienígena nas cenas, a forma como ele muda de ideia sobre destruir a Terra sem nenhum tipo de motivação para isso. Sem contar que no início do filme, Venom é ameaçador e fala mansa, e no fim ele é brucutu e brincalhão.
Falando em luta, a ação aqui é péssima, não só na filmagem, mas na execução. São momentos picotados por uma montagem destranbelhada, câmera chacoalhando sem parar, muita escuridão, coreografias trôpegas e sem emoção, além, é claro, da violência nula. O próprio visual do Venom remete a algo sanguinário, é um ser com dentes enormes que formam um sorriso e que está sempre falando em comer. Existem cenas onde ele come partes de pessoas e não existem gotas de sangue, nada, além de cenas envolvendo ferimentos que parecem ter medo de demonstrá-los. Um linguajar mais bruto também não seria ruim, assim como mais brutalidade e secura em certos momentos. É triste como o filme foi “lavado” para se adequar a classificações indicativas mais baixas, pois isso compromete a imersão.
As atuações são a parte que mais entristece no filme, com um Tom Hardy forçado a interpretar um palhaço cheio de reações exageradas e com uma personalidade que poderia ser escrita numa folha só. Michelle Williams claramente não combina com esse tipo de obra, e Riz Ahmed, bom ator como é, acabou sendo o mais prejudicado por seu vilão clichê e unidimensional. É realmente difícil se manter imerso quando o próprio filme parece nos impedir disto.
Os efeitos especiais são no máximo aceitáveis, mas nunca chegam a impressionar. Na verdade há muito mais momentos onde eles causam estranheza e nos tiram do filme do que momentos onde eles conseguem manter o público imerso.
Venom é um filme que possuía um potencial gigantesco, principalmente se tivesse focado no horror e na violência, mas decidiu seguir pelo caminho infatiloide, e nunca fugindo das fórmulas mais básicas do gênero de super herói.




