Em 2017, o cinema recebeu o que se pode nomear como o “Vingadores” do terror, com uma bilheteria estrondosa para o gênero e criando legiões de fãs, sem falar na inserção cultural que a obra teve nas vidas de milhões. Do livro para o filme, It – A Coisa (It) foi e é um fenômeno. E não é à toa, já que aqui temos a fórmula do sucesso: personagens carismáticos, uma história bem contada sem pontas soltas e, o mais importante, bom uso do medo!
Agora, esta a produção não é nem de longe a coisa mais assustadora já produzida. Andy Muschietti, o diretor famoso pelo não tão amado The Flash, é particularmente conhecido por apostar no exagero, seja visual ou interpretativo (por parte dos atores). Suas obras constantemente surgem com visuais compostos totalmente por CGI e possuem toques de um humor que fica entre o sem graça e o pontual. Em It não é diferente, já que o antagonista da obra pedia por um tom viajado.

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Seria leviano dizer que não existem cenas que te deixam arrepiado ou desconfortável, porque são até que muitas, com destaque para aquelas que apelam mais para a realidade. E o filme ainda é bem filmado, com uso de cores bem saturadas (o que é estranho para o terror!), e de efeitos de câmera interessantes que saltam aos olhos. O problema é que, no tocante à criatividade, Andy não é tão bem sucedido.
O longa segue um mesmo molde ao longo de sua duração, composto por: cada um dos protagonistas tem um momento sozinho onde são aterrorizados separadamente pela Coisa, e então isso se repete quando eles já estão todos juntos, além de pequenas sessões com personagens secundários em que a fórmula se repete. É certo dizer que mesmo no ato final a fórmula se repete, embora nota-se uma mexidinha no jeito que os acontecimentos se desenrolam aqui e ali. No entanto, o engraçado é que embora essa receita de bolo possa ser sentida na trama, ela nunca chega a incomodar muito. Isso porque são personagens e horrores divertidos de ver passando na tela. Os visuais podem até não assustar, mas conseguem arrancar um “que nojo!” da plateia.
Existe uma aproximação muito natural do espectador com os personagens, de forma que nunca temos a sensação de estarmos sendo empurrados para eles. Eles se conhecem aos poucos e, por consequência, quem assiste também. Em vinte minutos é bem fácil querer que todos estejam vivos e bem até o final. Essa qualidade acaba realçando o terror, o que é sempre bom para um filme do gênero.
Falando então da estrela do filme, temos Pennywise, interpretado pelo incrível Bill Skarsgård, que sempre rouba a cena quando aparece. Por mais difícil que possa ser reconhecer esse fato, é bem difícil um filme de terror ter um bom antagonista (pelo menos na minha opinião), e por sorte este aqui achou um ator capaz de encarnar o palhaço. O ator muda completamente, tornando-se divertidamente bizarro, embora as vezes também fique engraçado, mas em palavras próprias, é proposital. Ele não se sente impelido a agir de imediato, nem de perseguir ninguém. Ele saboreia o medo das crianças, ele se diverte ao vê-las chorando e debocha disso, o que é, sinceramente, brilhante por parte do ator. Seu visual exagerado e sem uma época certa acompanhando é acertadíssimo, mirando no estranho.
O longa é infeliz, contudo, ao explorar muito pouco a natureza da Coisa, com relativamente poucas cenas reservadas. Ainda assim, resta ao seu redor um odor de medo satisfatório.
It – A Coisa, é um filme competente, sem grandes pretensões e, sejamos francos, bastante divertido! Com certeza não é perfeito, mas vale muito a pena conferir.



