Crítica de filme

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos

Publicado 7 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 2.5

Estado da Arte

Vivemos um período pós-ressaca dos heróis. Chegamos ao estágio das sátiras mainstream, do Superman Malvado no imaginário, do esgotamento de um modelo de produção. A identidade da Marvel exauriu-se, e novas saídas são necessárias para que a roda continue girando.

Semelhante a Superman (2025), Quarteto Fantástico: Primeiros Passos prescinde de história de origem. Não vemos a viagem-acidente que concedeu poderes aos quatro integrantes, assim como a chegada do kryptoniano à Terra. Essas escolhas, nesses dois filmes, não são à toa. Tratam-se de decisões frescas para seus respectivos universos e, mais importante, para um jeito-de-fazer que não tinha mais forças. 

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Com muito potencial desperdiçado, ‘Venom’ veio com violência higienizada, dinâmica frouxa e uma trama oca, desprovida de diversão.

As comparações são inevitáveis: estética retrofuturista, primeiros filmes que omitem o início da trajetória, além de cisões estilísticas com o passado. A DC abandona o tom sisudo e abraça o espírito da Era de Prata; a Marvel substitui telas verdes e StageCraft por um desenho de produção genuíno.

O filme

Temos, então, terreno fértil e disposição para distanciar-se do que saturou o gênero. Isso se concretiza parcialmente, sobretudo ao resolver um dos maiores problemas do MCU: os vilões. Aqui, surge Galactus, o Devorador de Mundos — não uma nuvem de poeira, mas o faminto colosso roxo.

O Quarteto Fantástico de Matt Shakman, na Terra-828, compõe-se de aventureiros, astronautas e exploradores, como definiu o diretor. São figuras midiáticas, políticas e culturais. Essa abordagem só é viável por ser uma obra livre dos vícios marvelianos: não paga pedágio a referências vazias (Homem-Formiga, por exemplo). O foco reside em seu funcionamento interno e dinâmicas particulares.

No quarto ano de atuação da equipe, a Surfista Prateada Shalla-Bal desce à Terra e avisa: seu planeta está marcado para morrer. O Quarteto prontamente se prepara para visitar os confins da galáxia para descobrir o porquê. Aqui, um dos méritos do filme e os louros de ser desgarrado do MCU (até então): os Fantásticos não são necessariamente super heróis. Eles são vistos, percebidos e celebrados de forma distinta; essa percepção de herói é muito do nosso mundo, ou Terra-199999.

Os quatro, ou melhor, cinco, já que Sue Storm (Vanessa Kirby) está grávida, encontram Shalla-Bal e Galactus. Prestes a implorar clemência, deparam-se com uma proposta ultrajante: o feto pelo Planeta. Proposição maligna, mas há contornos mais profundos: Galactus não quer mais sentir fome e precisa de um herdeiro para seu trono maldito. Franklin Richards, o futuro Fantástico, poderia perpetuar o fardo de devorar mundos.

Os roteiristas acentuam esse contraste com inteligência. Um bebê intrauterino herda um legado tido como perverso, mas que é apenas o curso natural do cosmos: para construir, é preciso destruir. Galactus, a auto regulação do universo, cansou-se de sua condição e quer Franklin para carregar sua fome infinita.

Os quatro recusam. Lutam para voltar à Terra, e Sue dá à luz durante a jornada. De volta ao planeta, sua dimensão de celebridades força o Quarteto a prestar contas ao mundo. A sociedade rejeita sua decisão de manter o filho, mas aqui entra um momento de brilhantismo do filme. 

Reed Richards discursa sobre liderança e o fardo de decisões impossíveis. Admite ter cogitado trocar o filho pela Terra: não por maldade ou paternidade falha, mas porque liderar implica dilemas que rompem laços. Sue, então, toma Franklin no colo e avança rumo à praça pública. Ali, tudo se encaixa.

Sue Storm avança à praça com Franklin. O IMAX, enfim útil, amplia seu corpo minúsculo contra a multidão. O cinza do filme persiste, mas sua fala calorosa atravessa a palidez: “Pais moveriam céus e terras por seus filhos”. Eis o pulo do gato: a solução científica de Reed nasce do discurso maternal. Não do roteiro que implora que você entenda ‘família!’, mas da encenação, que consuma a ideia. Vitória rara da Marvel, porque conseguiu fazer cinema. 

A ideia de Reed é teletransportar a Terra para outro lugar no universo e fugir de Galactus. A partir desse momento, o planeta precisa de sacrifícios energéticos para o plano funcionar, e a humanidade aceita. É curioso como o medo de uma ameaça alienígena faz a raça humana juntar forças.. é simplesmente o final de Watchmen! (Os quadrinhos, não o terrível filme)

O que há de ruim no filme

Matt Shakman não é um grande diretor. Seu outro trabalho na Marvel, WandaVision, é um desastre gigantesco. O maior pecado da obra é reduzir-se a simulacro. A ideia de rastrear a história das séries americanas é uma sacada interessante, mas não passa de imitação barata. Em Quarteto, o retrofuturismo é superficial. Nenhum ideal brota dessa escolha visual (idêntico ao Superman de James Gunn). Compare-se com Os Incríveis (2004), no qual a estética comenta o assentamento suburbano americano pós Segunda Guerra Mundial.

Esse visual, que inicialmente chama atenção por ser diferente do padrão Marvel, não resiste a um olhar mais profundo. Os cinzas proeminentes e uma câmera que jamais explora espaços físicos ou proporções de tela confirmam Shakman como diretor ruim. A sensação é de potencial desperdiçado. Ainda mais com uma montagem que esquarteja o olhar, como é o caso deste filme, que perdeu personagens completos na mesa de edição, como o Red Ghost de John Malkovich. É claramente um filme retalhado.

A relação entre Ben (Ebon Moss-Bachrach) e Johnny (Joseph Quinn) é muito boa no papel. Sem a cena da transformação do Coisa, surge uma dinâmica amistosa sem piadas fáceis sobre sua aparência. Falta, porém, tratamento imagético digno, crítica aplicável a todo o filme.

Do que adiantam sets elaborados se a iluminação não esculpe rostos? Do que adianta Tocha Humana denotar inteligência investigativa profunda se os meandros do trabalho não são mostrados, apenas a (boa) conclusão? A redenção de Shalla-Bal liga-se a Johnny, mas o filme ignora tudo tudo entre eles além da óbvia tensão sexual. 

É um bom filme que parece ótimo por contrastar com o passado recente  e pelo timing de lançamento. A tara por telas verdes cede ao fetiche de efeitos práticos, mas ainda sob lógica fordista marveliana. Seria icônico com Brad Bird? Talvez. Para um público acostumado a lixo, porém, um prato insosso basta.

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Quarteto Fantástico: Primeiro Passos

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos

Fantastic Four: First Steps
12
País: EUA
Direção: Matt Shakman
Roteiro: Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan, Ian Springer
Elenco: Vanessa Kirby, Pedro Pascal, Ebon Moss-Bachrach, Joseph Quinn
Idioma: Inglês

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