Um dos momentos mais bonitos de um casamento é sem dúvida aquele de quando os nubentes proferem os conhecidos votos que os enlaçam num pacto de companheirismo até que a morte os separe. Porém, muito do que aquelas palavras proferidas no altar dizem pode bem ser transferido para outro tipo de relação entre duas pessoas, qual seja, a amizade, como de forma bem eficiente demonstram as duas primeiras temporadas de Disque Amiga Para Matar (Dead To Me).

Unidas pela morte
Sendo assim, no ano passado a série de Liz Feldman nos apresentou a Jen (Christina Applegate) e Judy (Linda Cardellini) que, ironicamente, foram unidas não por um lapso do destino de suas vidas, mas sim pela morte. Sua amizade nasceu em um desses encontros de autoajuda que os americanos adoram e constantemente retratam em suas obras cinematográficas e televisivas. A bola da vez é um grupo de pessoas que se encontrava para conseguir lidar com o luto. É que Ted, o marido de Jen, tinha falecido recentemente, vítima de um atropelamento, deixando-a com dois filhos para criar.
Na tristeza…
E é nesse momento mórbido, com mortes e crianças órfãs, que tem início a trama de Disque Amiga Para Matar. Olhando-a em retrospectiva, porém, nota-se que Feldman não quis dar a sua série o peso totalmente dramático que esse tema muito provavelmente daria à história.

E na alegria…
Assim, é fácil perceber, já no primeiro episódio, os elementos que, misturados ao tom fatalístico da premissa do seriado, dão a ele mais leveza, mas sem tirar a seriedade do assunto – basta observar o local onde acontecem os encontros do grupo de luto, ao ar livre, numa praia maravilhosa e, é claro, durante o dia, quando a luz ajuda a espantar os fantasmas (ou pelo menos a afastá-los) e tudo fica um pouco mais fácil.
A fotografia clara dos episódios, o figurino que até podemos chamar de colorido (especialmente o de Judy) e a trilha sonora deliciosa de Adam Blau, também ajudam a inserir mais suavidade na trama (o quão gostoso foi assistir Applegate dirigindo por Laguna Beach ao som de Don’t Worry Baby?!).
Troque a praia por uma sala fria à noite, coloque um filtro de lente escuro na câmera, um figurino com cores mais sóbrias, uma música mais “forte” e teríamos um tipo totalmente diferente de série, dramática em toda a sua forma. Mas não é assim em Disque Amiga Para Matar, que transita facilmente entre o drama e a comédia, subterfúgio que, aliás, vem sendo bastante utilizado, fazendo os dois gêneros atuarem em simbiose e conquistando o público mundo afora. Fleabag é outro exemplo de reconhecimento deste tipo de trabalho.

A comédia que se destaca!
Mas mesmo assim, é a comédia que destaca Disque Amiga Para Matar e relega os clichês a segundo plano, mesmo que estes sejam bem aparentes. Nesse ínterim, o mérito é todo de Applegate e Cardellini. Tão diferentes quanto duas pessoas podem ser, a Jen de Applegate é explosiva e impaciente, enquanto a Judy de Cardellini é a generosidade e a sensibilidade em pessoa. Ambas estão tão bem em seus papeis que receberam as suas (merecidas) indicações ao Emmy, o prêmio máximo da TV.
Quando rimos dos palavrões de Jen ou das piadas ruins e do jeito excêntrico de Judy, fica fácil passar pano para as coisas erradas que fazem (e elas fazem muitas coisas erradas, especialmente na segunda temporada), inseridas de forma tão natural e dinâmica na trama que Feldman só merece nossos aplausos.

Aliás, talvez seja o fato de a história e a produção serem conduzidas em sua maior parte por mulheres é que torna essas duas figuras tão cativantes e reais e seus contextos tão facilmente identificáveis pela parte feminina do público: Jen é uma mãe workaholic que vive assombrada pelo medo do câncer de mama e faz uma mastectomia (o que acaba com seu casamento), e Judy não consegue realizar o sonho de engravidar (o que também acaba com seu casamento).
Assim, sendo a série notada desde o primeiro momento, Applegate continua fazendo sombra a sua companheira de elenco, mesmo que Cardellini tenha tido maior reconhecimento este ano, mas isso não apaga o show que esta última também dá durante a série.
É por essas e outras que, quando Jen e Judy se juntam, é sucesso garantido. Essa é a história de uma amizade tão improvável que choca ao mesmo tempo que destila sua química impressionante, além de mostrar que, às vezes, o perdão vale a pena, quando a alma não é pequena.
Respostas de 11
Crítica excelente. Vai fazer com que muitos venham assistir…
Muito obrigada, Vera! Que bom que curtiu!
Adorei. Vale a pena assistir
Fiquei curiosa após ler sua crítica!
Vale muito a pena!!
Fiquei curiosa após sua análise!
Pois faça isso! Super vale a pena!
Tbm gostei do seriado! E da sua crítica 👍🏻
😘😘😘
Excelente crítica. Convincente. Vou assistir. Parabéns!
Obrigada!! ❤️