Pablo Larraín retrata Maria Callas, a maior cantora de ópera do mundo, em seus últimos dias na Paris dos anos 1970. Uma mulher em confronto com sua identidade, banhando-se em momentos de glória e trauma.
O gênero biográfico é, sem dúvida, o mais desafiador do cinema. Quanto mais importante a figura, maior o desafio, e o maior pecado de Maria Callas é exigir do espectador um conhecimento prévio para uma experiência fílmica completa. A introdução com flashes pretende ilustrar o glamour e auge da vida da cantora, mas resulta mais em um comercial de perfume de luxo. Como alguém que nunca tinha ouvido falar da artista e que, embora aprecie, não é fã de ópera, eu esperava conhecer essa mulher divina através das lentes de Pablo Larraín, que tanto me cativou em Spencer.

O Drama mergulha no caos de um passado para denunciar a toxicidade das redes sociais e o linchamento moral em uma trama visceral com Zendaya e Robert Pattinson.
Porém, assim que as luzes se acenderam, precisei recorrer ao celular para pesquisar sua vida e entender o contexto histórico – elemento que deveria ter sido construído dentro da própria narrativa. O projeto se reveste de uma arrogância cinematográfica impressionante. Cada frame é de uma beleza clássica que homenageia o passado através do apartamento da cantora, simbolizando uma bela gaiola cintilante onde ela está presa após a perda de seu canto. Mas a narrativa não vai além dessa superfície.
Para dimensionar os tormentos de Callas, seria fundamental mergulhar em sua genialidade artística. No entanto, o roteiro apenas flerta com essa profundidade, preferindo retratar uma diva temperamental e solitária – como se Larraín estivesse mais interessado em criar quadros bonitos do que contar uma história complexa. A todo momento queria sacudir Maria e fazê-la cair na real (nota: nunca se deve tratar uma pessoa com depressão assim). A mulher era uma lenda e abandonou um casamento para ficar com Aristotle Onassis (Haluk Bilginer), um homem completamente desprovido de atrativos. E não por necessidade, já que era rica e prestigiada – então por que a escolha de um homem obsceno daquele? Isso só expõe ainda mais as falhas do projeto: em vez de gerar empatia, o filme me fez julgar Callas.
Falando em biografias, vale um comparativo com Eu, Tonya. Tonya Harding também era temperamental, polêmica e um gênio em sua arte. O filme de 2017 com Margot Robbie é superior e aborda tormentos similares aos de Maria: relação difícil com a mãe, relacionamento tóxico com homens e o declínio de não poder exercer o trabalho que ama. Maria Callas é retratada como resignada, submetendo as pessoas ao seu redor a tarefas além de suas funções – um pianista exercendo papel de terapeuta, uma governanta como enfermeira, um mordomo como secretário e figura paterna. É frustrante ver personagens que existem apenas para facilitar a vida da protagonista, como se não tivessem anseios próprios além de agradar sua senhora.
Angelina Jolie, atriz extremamente competente e aparentemente a escolha ideal para retratar os dias finais e decadentes da cantora, entrega uma performance que remete a Gia – mas sem a mesma potência que demonstrou naquele papel. Apesar de ter se dedicado a aulas de canto, as cenas em que Maria tenta cantar evidenciam uma dublagem que, mesmo quando mesclada com a voz da própria Jolie nos momentos de frustração vocal da personagem, não consegue transmitir a verdadeira angústia de uma soprano que perdeu seu dom.
Larraín prova mais uma vez que é mestre em construir quadros estonteantes, mas Maria Callas se perde ao tentar sustentar sua narrativa apenas em memórias cintilantes e joias opulentas. Como um colar de diamantes sem fecho, o filme possui elementos preciosos que nunca se completam verdadeiramente em uma peça coesa. É uma obra que, assim como o apartamento parisiense de sua protagonista, é lindamente decorada mas estranhamente vazia.




