Crítica de série

Twin Peaks (3ª Temporada)

Publicado 1 semana atrás

Nota do(a) autor(a): 5

“Irei te ver novamente em 25 anos.” A frase dita por Laura Palmer (Sheryl Lee) no 22º episódio da segunda temporada de Twin Peaks, lançado em 1991, parecia surreal dentro do contexto da época. Em meio a conflitos entre os criadores David Lynch e Mark Frost e o canal ABC, Lynch entregou um final de temporada extremamente surrealista, muito distante do que a trama, até então focada no embate entre o agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) e Windom Earle (Kenneth Welsh), estava caminhando. O sombrio cliffhanger, com Cooper preso na dimensão do Black Lodge, somado ao posterior cancelamento da série, deixou uma enorme dúvida na mente dos fãs.

Duas décadas e meia depois, e com o cultuado filme Fire Walk With Me (visto como uma espécie de prequel), contrariando até mesmos os fãs mais otimistas, Twin Peaks ressurgiu em 2017 com uma temporada em 18 episódios produzida pela Showtime. A frase de Laura no episódio final acabou sendo ressignificada agora como uma promessa, tanto para os personagens quanto para o público. Essa mesma cena abre a série, que por quase 18 horas, apresenta uma mudança clara de estética e estilo de narrativa, sem deixar de lado a aura e o encanto do universo de Twin Peaks.

Na trama, 25 anos após os eventos da segunda temporada, acompanhamos o agente Dale Cooper ainda preso no Black Lodge, enquanto forças sobrenaturais voltam a se manifestar em Twin Peaks. Em paralelo, seu doppelgänger maligno, conhecido como Mr. C, espalha uma onda de caos e violência.

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Às vezes, o que salva uma história comum é a coragem de admitir que nem toda bagunça tem conserto.

Diferente das temporadas anteriores, que misturavam mistério, surrealismo, melodrama e tons de novela, este retorno desconstrói esses elementos. O ritmo é mais lento em boa parte dos episódios, enquanto a montagem intercala diversos núcleos, entre rostos familiares e novos personagens. A experiência proposta é de redescobrir o cotidiano: seria o tempo suficiente para restabelecer uma suposta normalidade?

Temas recorrentes da filmografia de Lynch estão ainda mais presentes e expandidos aqui, como o horror oculto sob a superfície da normalidade estadunidense e a ambígua relação entre realidade e sonho. Há uma dança entre horror e beleza nesse incomodo cotidiano que não se restringe mais a pequena cidade de Twin Peaks, nem ao período temporal do assassinato de Laura Palmer.

Em comparação com a segunda temporada, O Retorno ignora boa parte das tramas cômicas e novelescas, optando por um mergulho profundo no lado sombrio do universo da série sobretudo no que tange ao Black Lodge e seus mistérios. O humor ainda está presente, mas o desconforto e a sensação de um perigo iminente permeiam cada episódio.

Indo na contramão do que acabaria se tornando uma tendência nos reebots e continuações do cinema na tv, a série cria uma nova relação com a nostalgia, muitas vezes buscando negar, ou então por segurar um momento até que se crie um impacto emocional maior. Os temas clássicos de Angelo Badalamenti são raramente utilizados em comparação com as temporadas anteriores, trazendo um silêncio desconfortável. Nas raras vezes em que as trilhas clássicas são invocadas em cenas chave, como a de Bobby Brings (Dana Ashbrook) na delegacia no terceiro episódio ou a de Cooper no hospital, o impacto sentimental torna-se maior.

Apesar de resistir à nostalgia direta, Lynch expande o universo da série ao incorporar novas referências culturais e musicais. A maioria dos episódios termina com uma apresentação musical no Bang Bang Bar, com artistas como Chromatics, Au Revoir Simone, Rebekah Del Rio, Nine Inch Nails e até Eddie Vedder, ampliando a atmosfera da série para além de suas origens.

O maior destaque da série não poderia ser outro se não Kyle MacLachlan. Interpretando múltiplas versões de seu personagem como Dale Cooper, Mr. C, Dougie Jones, entre outros, ele explora  uma impressionante versatilidade, transitando desde o amável e bondoso ao mais frio e ameaçador passando pelo “neutro” e ingênuo.

Outro núcleo de destaque é o do FBI, com o retorno de David Lynch como Gordon Cole e Miguel Ferrer como Albert Rosenfield, além da entrada de Diane Evans (Laura Dern) personagem antes apenas mencionada nas gravações de Cooper e que se torna um grande pilar da série. Entre os novos nomes no elenco temos ainda Michael Cera, Tim Roth, Robert Forster, Naomi Watts, entre outros.

Um outro grande destaque desta temporada está em especial no aclamado episódio 8. Sendo esse talvez o mais surrealista e abstrato dentre todos os episódios da série, a experiência é marcante desde os primeiros minutos, ao explorar de forma lírica as origens do assassino Bob (Frank Silva) e levantar reflexões sobre o simbolismo de Laura Palmer neste universo tão sombrio.

A conclusão da terceira temporada de Twin Peaks me invoca uma das passagens mais marcantes que pode ser visto como uma outra promessa da série. A frase dita em Twin Peaks: The Missing Pieces (David Lycnh, 2014) “Os Anjos retornarão, e quando você ver aquele que irá te salvar, você irá chorar de alegria”. Além de impactar o final de Fire Walk With Me, essa passagem resgata como a consolidação da figura de Cooper e Laura em arquétipos de uma tragédia grega.

Em 2019 a revista Cahiers du Cinéma considerou Twin Peaks: The Return como o melhor filme da década.Desde seu lançamento a série buscou romper as barreiras entre o cinema e a TV, trazendo uma experiência até então inédita para os espectadores que acompanharam por meses os mistérios sobre quem matou Laura Palmer. Quase quatro décadas depois, os enigmas dessa pequena cidade fictícia no noroeste dos Estados Unidos ainda ecoam entre diferentes gerações, desde os que acompanharam a série em seu lançamento aos novos espectadores.

Embora haja um sentimento de luto pelo falecimento de David Lynch no início de 2025 e pelas notícias de que ele desejava retornar para uma quarta temporada, Twin Peaks parece se completar em sua própria dúvida. Ao não oferecer uma conclusão objetiva, mas ao renovar sua essência, seu mistério e seu vínculo emocional com o público, a série encontra sua plenitude e se reinventa a cada revisita. De uma forma ou de outra, no final Laura Palmer e David Lycnh vivem.

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Twin Peaks

Twin Peaks

A16

País: Estados Unidos

Criador(a): David Lynch, Mark Frost

Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Michael Horse

Idioma: Inglês

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