Suçuarana: o pardo e feroz animal que vaga de forma inescapável pelo cerrado. O terreno que não é apenas um cenário, mas a vida que abriga a jornada. Dora, nossa protagonista, se constrói não apenas em sua devastação ou nas pequenas tragédias da vida, mas na busca de algo que ultrapasse a sobrevivência. O filme de Sérgio Borges e Clarissa Campolina é uma silenciosa reconciliação com o ser.
O argumento do longa é tão simples quanto se pode ser: uma mulher em busca da terra de sua infância. Mas a simplicidade aqui está muito bem servida pela estrutura da estrada que confere ao filme um ritmo particular que leva ao extremo a ideia da travessia em si como o destino. O chão, árido e poeirento, revela tanto a dureza da paisagem quanto a força da personagem. E é nesse contraste que o filme encontra seu centro emocional.
Visualmente, Suçuarana aposta em poesia. Há uma insistência silenciosa nos vazios, na poeira suspensa e em instantes eternos. O uso da trilha sonora minimalista intensifica a imersão: o som do vento, o rangido de uma porta, tudo é parte essencial de uma competente partitura invisível.
Ao mesmo tempo, há uma dimensão social que se insinua sem nunca cair no didatismo. A ruína ambiental produz através de si um reflexo de desigualdades históricas. A protagonista caminha entre destroços concretos e simbólicos, e a cada encontro o filme sugere que a luta não é apenas contra os obstáculos, mas contra o tempo que insiste em apagar vidas.
Esse ritmo contemplativo pode parecer exigente, mas é parte essencial da proposta. Suçuarana pede ao espectador que atravesse, junto da personagem, a aspereza da estrada. É só ao habitar esse tempo dilatado que o vislumbre de esperança ganha sua potência. Para aqueles familiares com terras mineiras é visível a inspiração no histórico extrativista do estado sendo usado como guia para tecer o roteiro e estética. A busca pela terra do Vale da Suçuarana é um símbolo maior de uma busca sem fim através da decadente paisagem de uma vida que encontra em Encrenca sua maior companhia.
Suçuarana é uma competente obra sobre o que persiste. Entre o deserto e a lembrança, o filme constrói uma fábula contemporânea que reafirma a vida mesmo quando tudo parece condenado a desaparecer.



