Crítica de filme

Uma Batalha Após a Outra | Crítica 1

Publicado 5 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 5

Uma Batalha Após a Outra, o novo filme do Paul Thomas Anderson, chega aos cinemas nessa quinta-feira, dia 25 e encontra o cineasta em sua melhor forma, com o diretor não só exibindo seu domínio de técnica e linguagem com uma fluidez avassaladora, mas também apresentando temas narrativos afiados que parecem ecoar em tempo real, o clima político do mundo, em 2025. 

Vagamente baseado no livro Vineland de Thomas Pynchon, Uma Batalha Após a Outra não perde tempo nenhum em dar início a sua ação. Logo nos primeiros momentos do longa, somos apresentados aos membros do French 75, um grupo de revolucionários que lutam contra a violência do sistema na mesma moeda de combate, utilizando o poder de fogo para defender os direitos básicos de imigrantes, mulheres e demais grupos vulneráveis. Liderados pela imponente Perfidia, interpretada de forma magnética por Teyana Taylor, o grupo é composto por demais idealistas, entre eles, Bob (Leonardo DiCaprio), um especialista em bombas, que se envolve amorosamente com a líder da equipe. Eventualmente, o desenvolvimento de uma dinâmica de poder entre Perfidia e o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), uma das grandes figuras de oposição ao grupo, acaba dando início a um jogo de gato e rato que coloca toda a existência do French 75 em cheque, fazendo com que Bob tenha que escapar para longe junto de sua bebê recém nascida, fruto do relacionamento entre ele e Perfidia. Agora 16 anos mais tarde, as batalhas do passado voltam para assombrar o pai solteiro e a sua filha, Willa (Chase Infiniti).

Paul Thomas Anderson sempre foi um diretor extremamente meticuloso, mas a sua direção nunca foi repleta de tanta naturalidade quanto aqui. As cenas parecem quase que costuradas de maneira uniforme, nunca se tornando bruscas em suas transições e trabalhando em conjunto para criar um ritmo frenético que nunca desperdiça nenhum segundo de tela. É um controle de elementos, que é complementado de maneira fervorosa pelo trabalho de fotografia de Michael Bauman, que filmou o projeto usando filme 35mm e a tecnologia VistaVision, uma junção de formatos que dá ainda mais dimensão e textura para o aspecto visual da obra. Uma perseguição de carro no auge do terceiro ato, em particular, é filmada de maneira tão inspirada que se torna impossível não prender a respiração durante a sequência. 

Para além de sua direção, Anderson também brilha como roteirista, balanceando diferentes tons com uma habilidade de dar inveja em qualquer escritor. É incrível a facilidade em como ele é capaz de abordar vários temas complexos como extremismo e racismo, mas ainda assim trazer doses de humor, muito bem pontuadas, para momentos oportunos do filme. Esse jogo de cintura, de difícil execução, se torna uma das qualidades mais marcantes do projeto, com a tensão dos eventos que os personagens estão vivendo sendo preservada sem precisar abrir mão do humor causado pelo absurdo de muitas dessas situações. 

Por falar em personagens, Anderson investe novamente em alguns padrões narrativos que podem ser encontrados dentro de sua filmografia. Pessoas falhas que cometem erros apesar de suas melhores intenções, relações geracionais e o embate de perspectivas entre elas são alguns dos pontos de conflito presentes na construção dos personagens que acompanhamos durante o filme. Leonardo DiCaprio brilha na pele do revolucionário Bob Ferguson, um pai superprotetor que perdeu seu espírito de luta e que é jogado de volta no caos e violência daquele universo, com as suas habilidades sendo apenas uma casca do que um dia já foram. Assistir DiCaprio, um dos atores responsáveis por patentear o termo “galã de cinema”, interpretando um homem desajeitado e instável tentando acompanhar um ritmo que ele não é mais capaz de replicar rende inúmeros momentos inspirados, como o segundo ato do filme, quando em parceria com Sensei (Benício Del Toro), Bob precisa descobrir a localização exata de sua filha. 

Willa, a filha de Bob, interpretada por Chase Infiniti, é outro grande destaque do projeto. A atriz, em seu primeiro papel em um longa-metragem, não tem dificuldade nenhuma em contracenar com os veteranos de seu elenco e sua química com DiCaprio, é responsável por equilibrar, em grande parte, o núcleo emocional da história. A paranoia incessante de Bob referente ao futuro de Willa também traz a tona um dos temas mais interessantes que ganha espaço dentro do contexto da relação parental entre os dois. Em mundo tão cruel e volátil, como você consegue, encontrar dentro de você, a confiança para abaixar a guarda e acreditar que aquela pessoa que você criou vai conseguir sobreviver a uma realidade que você não foi capaz de mudar? O mundo é amedrontador, ainda mais para quem tem filhos. Mas são eles que irão traçar um novo futuro.

O filme não tem medo nenhum de escancarar a insignificância intelectual dos homens em poder, mas também entende que isso não torna eles menos perigosos ou opressivos. Porque a violência nas mãos de figuras que só conhecem o mundo através de seus privilégios, sempre vai ser uma corda que arrebenta para o lado mais fraco. E nenhum dos personagens do filme ilustra isso de maneira tão efetiva quanto o Coronel Lockjaw, interpretado por Sean Penn, no auge do seu talento. Covarde, mas imprevisível, as movimentações do personagem oferecem ao ator, uma tela em branco que permite com que Penn transforme o antagonista em uma figura densa que nunca cai na armadilha de se tornar uma caricatura. 

Divertido, intenso e relevante, Uma Batalha Após a Outra é uma obra audiovisual com toda a grandiosidade técnica que se espera de uma produção de seu escopo, apresentando uma consistência de qualidade que se permeia desde a sua excelente trilha sonora até ao seu trabalho de montagem ágil. Mas acima de tudo, o longa se torna tão especial porque ele se comunica com o aqui e agora ao escancarar que a revolução não é uma causa que pode ser ditada pela conveniência. Continuar a lutar pelo que se acredita é tão difícil quanto realizar a decisão consciente de iniciar essa luta. Que bom que temos um filme excepcional, de uma das grandes vozes do cinema moderno, para nos lembrar disso.

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Uma Batalha Após a Outra Poster

Uma Batalha Após a Outra

One Battle After Another
16
País: EUA
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson, Thomas Pynchon
Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Teyana Taylor, Chase Infiniti, Regina Hall
Idioma: Inglês, Espanhol

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