Crítica de filme

How to Shoot a Ghost

Publicado 4 meses atrás
Nota do(a) autor(a): 5

“Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografar, pintar ou mesmo se lembrar dela. Ela é suficiente.”Essa citação da escritora Toni Morrison abre o novo curta-metragem de Charlie Kaufman, How to Shoot a Ghost e sintetiza sua proposta: refletir sobre a beleza efêmera do mundo, suas contradições e o desapego à memória.

O filme marca mais uma parceria com duas figuras presentes em seus projetos recentes: a poeta e roteirista Eva H.D., que também escreveu o curta Jackals & Fireflies (2022), e a atriz Jessie Buckley, protagonista de Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020). O ator libanês Josef Akiki completa o elenco.

Na trama, dois jovens recém-falecidos se encontram nas ruas de Atenas, na Grécia. Lá, perambulam entre a pulsação da cidade e os fantasmas da história. Ele é tradutor; ela, fotógrafa — ambos se sentiam excluídos quando eram vivos. Na morte, enfrentam os resquícios de seus anseios e erros. Juntos, percorrem a cidade, encontrando conforto na estranha beleza da existência e no que permanece após ela.

Leia também

A Noiva

A Noiva

Maggie Gyllenhaal promete uma tragédia gótica feminista, mas sua condução fragmentada desperdiça os talentos de Jessie Buckley & Christian Bale.

Em seus quase 30 minutos de duração, How To Shoot a Ghost flerta com a ideia de uma narrativa à la ‘Trilogia Before’, de Richard Linklater, na qual os personagens se conhecem enquanto exploram uma bela cidade. No entanto, o curta-metragem opta por uma estrutura fragmentada, conduzida pela narração em formato de poesia de Eva H.D. Entre flashbacks dos últimos momentos em vida dos protagonistas, reflexões críticas sobre a questão imigratória e uma busca incessante por preenchimento interno dos protagonistas se alternam durante o filme.

É interessante observar a construção imagética de uma obra de Kaufman afastada do roteiro, como ficou conhecido em sua carreira, mas ainda assim dotada de forte unidade estilística. Há uma mescla de belas imagens entre desfoques e baixa profundidade de campo, efeitos de vitrais e distorções angulares de câmera, criando um tom onírico e fantástico. Ao mesmo tempo, o filme incorpora imagens de arquivo, fotografias analógicas e registros em câmeras de baixa definição, estabelecendo um diálogo com o factual e com a própria construção da memória, tudo filmado na proporção 4:3. O resultado é um filme que ora capricha em um visual encantador, ora capta as imperfeições do mundo, sem deixar de lado a busca de beleza nos registros sinceros e espontâneos do olhar da personagem de Buckley.

Entre a dupla de protagonistas, o personagem de Josef Akiki talvez seja aquele com mais nuances. Seu arco envolvendo uma ligação com o mar, preconceitos sofridos na cidade (que não ficam claros se são por orientação sexual, pela condição imigratória ou uma junção de ambos) e o apego familiar, o torna refém do plano material. Mesmo contido, sente-se o peso dos fardos carregados durante a vida, que o seguem após a morte.

Já a personagem de Buckley cativa o espectador de forma mais direta, seja por sua caracterização (com os cabelos azuis vibrantes), seja pelos contrastes entre registrar memórias com sua câmera Polaroid e o ato de queimar as fotografias. Em poucos minutos, observamos múltiplas facetas da personagem: raiva, melancolia, fuga dos problemas e uma admiração genuína ao contemplar o mundo sob a ótica de um fantasma. Há ainda interações sutis entre a personagem com outros fantasmas da cidade que ampliam o subtexto desse universo do pós-morte.

A questão imigratória permeia a narrativa nas conversas e reflexões dos personagens sobre seus destinos. Mesmo ambientadas em Atenas, as metáforas propostas podem ser encaixadas ao contexto de outros países. O dilema entre a diferença entre turistas e imigrantes refugiados somadas a imagens de arquivo impulsionam ainda mais a crítica.

Entre as obras de Kaufman, talvez esta seja a que mais reflete as angústias exteriores do mundo contemporâneo. Ao não oferecer soluções ou respostas claras, o filme opta por encerrar-se em belas cenas sensoriais, que ecoam a própria experiência da vida.

O que seria a arte senão uma tentativa de diálogo, seja verbal ou sensorial, entre autor e espectador? A cena em que os personagens assistem a si mesmos em uma sala de cinema provoca a sensação de que toda obra artística é também uma tentativa de se observar sob outra perspectiva. Essa talvez seja a maior força do curta: a combinação entre a poesia narrada e o poder imagético dos autores.

Ao final, How To Shoot a Ghost representa uma nova estética de Kaufman, em que seus personagens se relacionam de forma mais direta com o mundo ao redor, sem abrir mão das angústias e contradições interiores. Sua parceria com Eva H.D. parece equilibrar o desconforto de um autor ansioso e neurótico com as ideias abstratas de uma escritora confiante, disposta a provocar e explorar ao máximo o potencial das imagens no subconsciente, seja por meio do cinema, seja pela poesia.

A sensação ao término do curta remete tanto à frase inicial de Toni Morrison sobre a beleza efêmera do mundo quanto à música Perfect Day, de Lou Reed, que encerra os créditos finais. “Acredite ou não, tudo isso é verdade.”

Compartilhar
© via TMDb. Todos os direitos reservados.

How to Shoot a Ghost

How to Shoot a Ghost
16
País: Estados Unidos, Grécia
Direção: Charlie Kaufman
Roteiro: Eva H.D
Elenco: Josef Akiki, Jessie Buckley, Eva H.D.
Idioma: Inglês

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.