De longe um dos melhores filmes de terror nos últimos anos, e não é para menos. Jordan Peele se tornou uma das vozes mais poderosas no cenário do horror, e trouxe uma força que ninguém esperava. Seus filmes poderosos que mesclavam temas sociais com questões socioeconômicas foram importantíssimos para que outros artistas também se vissem com o poder para mostrar suas ideias, suas visões de mundo. Em meio a tantas obras que vieram depois do aclamado Corra! (Get Out!), tivemos O Que Ficou Para Trás (His House) em 2020.
Aqui, a questão da conexão emocional de espectador com personagens não tarda, com um clique quase automático para que o “carinho” nasça e a trama se desenrole. O contexto enfrentado pelo casal principal Bol e Rial Majur (respectivamente Ṣọpẹ́ Dìrísù e Wunmi Mosaku) é capaz de sensibilizar qualquer um, traçando ainda um forte paralelo com a vida real, ainda mais quando a ótima direção do estreante (e infelizmente sumido) Remi Weekes dá leves toques do preconceito e da xenofobia nada velados das pessoas ao redor deles.

Joel Edgerton entrega uma performance contida, onde o peso do mundo é carregado em cada olhar, cada gesto.
Dessa forma, a fotografia também contribui com cores frias, quase mortas, e um mundo que parece não os querer. Dírísù busca ter muita esperança, mas o ator manda bem demais ao demonstrar que não, ele não tem nenhuma. E a câmera de Weekes ainda age como uma espécie de bully para os dois, como que diminuindo-os, ilustrando como se sentem ali.
Diferentemente do que outros filmes de assombração podem apresentar, O Que Ficou Para Trás sedimenta o seu terreno com toda essa visão crua e real das coisas para só então introduzir o elemento sobrenatural intríseco a isto. E, minha nossa, como isso funciona bem. O filme nem perde tempo e logo já coloca os protagonistas para ouvir vozes, ver coisas e sentir coisas que não só o aterrorizam, mas ao espectador também. Remi Weekes demonstra o quão sagaz é ao conseguir retratar temas como ancestralidade atrelados ao terror. Coisa bem parecida com o que Ryan Coogler fez em Pecadores (Sinners) este ano, contudo eu diria que, enquanto Coogler foi mais “brega” e fantástico nisso, Weekes foi mais pesado e direto. As assombrações mal aparecem, mas permeiam a mente dos dois, e de quem assiste. A direção sabe usar o escuro para brincar com sombras e silhuetas, além de a mixagem de som acabar com nossos sentidos.
Mais sagaz ainda é como Weekes foge do óbvio ao não apostar nos jumpscares e sim na atmosfera, deixando o casal, mas principalmente o personagem de Dírísù perturbados. A própria natureza do perigo é diferente do costume, o que junto ao contexto dramático da família consegue a façanha de não tornar a obra previsível. É bem difícil tentar prever o que pode acontecer aqui, e acho que maior qualidade que essa num filme desses não há. O engraçado é que existem sim jumpscares, e se fossem só eles por eles, talvez não funcionassem tão bem, no entanto, somados ao drama do casal e o que eles enfrentaram, até mesmo um recurso tão pífio quanto esses sustos ganha munição. Os sustos aqui não querem o espectador, eles querem os protagonistas.
Claro, a obra não teria tanto poder sobre nós se não houvesse bons atores para sustentá-la, e aqui os atores são espetaculares. O marido consegue extrair medo de sua interpretação, porém também exibe uma culpa e uma raiva que chegam a assustar. A esposa é capaz de parecer sempre corajosa, mesmo que sinta o medo, e ainda lida com a chance de seu cônjuge não ser uma boa pessoa. O filme então alimenta a cada um, e quem ganha é quem assiste.
Se existe um defeito em O Que Ficou Para Trás, poderia-se dizer que é a sua duração. Não que o tempo que o filme tem seja insuficiente ou algo assim, na verdade ele consegue se desenvolver muito bem, mas creio que alguns minutos a mais iriam favorecer uma obra que já é espetacular. Sinto que as coisas poderiam ter mais desenvolvimento para nos engajar com os personagens, aumentar o pavor, potencializar o drama. Mesmo assim, creio que aqui temos uma obra digna de boas conversas e debates, e é uma pena que seu realizador tenha sumido depois de fazê-la.
O Que Ficou Para Trás é precisamente o que o título brasileiro promete: uma obra que ilustra o horror de ser alguém na posição de pedir ajuda a alguém que talvez não queira te ajudar, uma obra que mostra como “boas pessoas” podem também ser pessoas ruins para conseguirem não só o que querem, mas o que precisam, uma obra que demonstra como o terror do passado não vai embora… Ele continua nas paredes da casa, no teto, na mente e, as vezes, até na pessoa que você ama.



